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Tunguíase (“bicho de pé”): o que é e como tratar?

Em tempos de férias escolares, aumenta o número de casos de tunguíase. Saiba como identificar o parasita e proceder com os tratamentos.

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Durante as férias escolares, as crianças costumam brincar descalças na areia. É nessa época que alguns ectoparasitas podem penetrar a pele humana e causar manifestações clínicas. A Tunga penetrans — uma minúscula pulga, causadora da tunguíase — é um desses ectoparasitas com incidência elevada neste período do ano, principalmente em locais onde é endêmica.

Faremos, no texto a seguir, uma revisão sobre a tunguíase, doença também conhecida por tungíase ou, popularmente, como “bicho de pé”, “bicho de porco” e “pulga de areia”, e traremos informações sobre epidemiologia, diagnóstico (inclusive diferencial) e tratamentos. Acompanhe.

 

Etiologia da tunguíase

A pulga Tunga penetrans

Tunga penetrans é a menor das pulgas, medindo cerca de 1 mm, e tem como característica ser hematófoga [UpToDate Jun 2018, Anais Brasileiro de Dermatologia]. Ela pertence ao gênero Tunga, família Tungidae, ordem dos Sinfonápteros, classe dos Insetos, ramo dos Artrópodes [Anais Brasileiro de Dermatologia]. Tem como hospedeiro preferencial o porco, mas também parasita o homem, o cão, o gato, o rato, o boi, a cabra, o carneiro, o cavalo, o burro, mamíferos selvagens e aves [Anais Brasileiro de Dermatologia].

Apesar de tanto os parasitas machos quanto as fêmeas serem hematófagos, somente a fêmea fecundada pode penetrar na derme, causando uma intensa resposta inflamatória [Jornal Brasileiro de Medicina].

 

Distribuição geográfica da tunguíase

A tunguíase ocorre geralmente em locais arenosos como praias, fazendas e estábulos. É encontrada em regiões tropicais e subtropicais do mundo, incluindo México à América do Sul, as Índias Ocidentais e a África [CDC].

 

Epidemiologia

No Brasil, em algumas comunidades, foram relatadas taxas de prevalência entre 16% e 55%. A doença ocorre em todo o país, sendo mais prevalente em assentamentos urbanos precários, em áreas rurais e em comunidades de pescadores [Jornal Brasileiro de Medicina].

 

Ciclo da tunguíase

O primeiro relato de tungíase ocorreu em tripulantes que navegaram com Cristóvão Colombo [Medscape].
  • Os ovos são depositados pela fêmea grávida no meio ambiente O número 1.
  • Os ovos eclodem em larvas O número 2 em cerca de 3–4 dias e se alimentam de detritos orgânicos no meio.
  • Tunga penetrans passa por dois estágios larvais antes de formar pupas O número 3.
  • As pupas estão em casulos que são frequentemente cobertos com detritos do meio ambiente (areia, pedras, etc.). Os estágios larval e pupal levam cerca de 3–4 semanas para serem completados. Depois disso, os adultos eclodem das pupas O número 4 e procuram um hospedeiro de sangue quente para se alimentarem de sangue.
  • Machos e fêmeas se alimentam intermitentemente em seu hospedeiro, mas somente fêmeas acasaladas penetram na pele (epiderme) do hospedeiro, causando um edema nodular O número 5. As fêmeas não possuem nenhum órgão de escavação especializado e, simplesmente, aderem à epiderme após a fixação com os seus dispositivos bucais.
  • Depois de penetrar o estrato córneo, elas penetram no estrato granuloso, com apenas suas extremidades posteriores expostas ao meio ambiente O número 6.
  • As pulgas fêmeas continuam a se alimentar e seus abdômens se estendem até cerca de 1 cm. As fêmeas depositam cerca de 100 ovos ao longo de um período de duas semanas; depois, morrem e são eliminadas pela pele do hospedeiro. Infecções bacterianas secundárias podem ocorrer [CDC].
https://www.cdc.gov/dpdx/tungiasis/

Os ovos, as larvas e pupas das pulgas podem sobreviver no ambiente por semanas ou
até meses, principalmente em solo seco, arenoso e com pouca luminosidade — como
próximo a chiqueiros, a montes de esterco e no peridomicílio (jardins e hortas). Devido à sua sobrevivência por tempo prolongado no ambiente, o controle da tungíase é um desafio [Jornal Brasileiro de Medicina].

 

Fisiopatologia

Fonte: Fleabites.net

O principal habitat da T. penetrans é o solo quente e seco (areia de praias, estábulos e fazendas de gado).

Após o contato, a pulga invade a pele desprotegida. A fêmea grávida fixa-se na pele usando peças bucais e penetra na epiderme do hospedeiro, geralmente na região plantar, pele interdigital e região sub/periungueal.

A porção anterior (cabeça e tórax) se mantém na parte superior da derme, alimentando-se dos vasos sanguíneos, enquanto a porção posterior (estigma respiratório e segmento anal) fica exteriorizada na superfície, para a eliminação de excrementos e ovos, e neste local geralmente forma-se um ponto ou uma ulceração. Ao final de uma semana, a pulga aumenta de volume – muitas vezes atingindo 1 cm de diâmetro – devido ao acúmulo de ovos no abdome, havendo liberação dos mesmos e consequente saída da fêmea, quer espontaneamente, quer pela reação inflamatória do hospedeiro [MedscapeJornal Brasileiro de Medicina].

Em muitos casos, essa fase é descrita como uma lesão branca com um ponto preto central. Infestações muito intensas podem causar ulceração e fibrose, que podem resultar em infecções secundárias, como bacteremia, tétano, linfangite e gangrena gasosa [Medscape].

 

Manifestações clínicas da tunguíase

Pode ser assintomática ou causar prurido e dor. As lesões são nodulares e podem ser únicas ou múltiplas, muitas vezes apresentando coloração preta centralmente. Os nódulos podem ulcerar [UpToDate Jun 2018].

Fonte: Scielo

 

Complicações

Podem ocorrer infecções secundárias como piodermite, celulite e linfadenites. Geralmente, as infecções secundárias são devido ao Staphylococcus aureusStreptococcus spp, porém outras bactérias aeróbias e anaeróbias, como o Clostridium tetani, também podem provocar infecções [Jornal Brasileiro de Medicina].

Veja também

Diagnóstico Diferencial

  • Larva migrans cutânea
  • Escabiose
  • Picada de formiga
  • Miíase
  • Picada de carrapato
  • Unha encravada
  • Dermatite cercarial

 

Diagnóstico

História epidemiológica e achados clínicos, aliados ao exame direto com visualização do parasita, após abertura da lesão com agulha estéril, permitem a confirmação do diagnóstico [Jornal Brasileiro de Medicina].

A dermatoscopia pode ser usada para examinar os achados característicos da superfície e identificar microscopicamente partes de pulgas e óvulos da tungíase.

A termografia infravermelha de alta resolução (HRIT) também tem sido considerada uma ferramenta útil na avaliação de inflamação associada à tungíase, particularmente em casos complicados [Medscape].

 

Tratamento

O tratamento é a remoção da pulga [UpToDate Jun 2018]. A pulga pode ser removida de sua cavidade com instrumentos estéreis, mas isso é mais difícil quando a pulga é ingurgitada. O orifício deve ser ampliado e todo o nódulo deve ser curetado ou extirpado. Após a extração cirúrgica, deve-se limpar bem e cobrir a cratera remanescente com um creme antibiótico tópico para evitar infecção secundária. Antibióticos orais pode ser necessários nos casos com infecção secundária.

Todo paciente deve ser avaliado quanto à vacinação contra o tétano e, se necessário, deve-se realizar a sua profilaxia [Medscape]. Há relatos de utilização de tiabendazol em infestações maciças, mas a extração continua sendo a terapia de primeira linha.

 

Prognóstico

O prognóstico é bom. Deve-se atentar para o tratamento adequado das infecções secundárias e realizar a profilaxia contra o tétano.

 

Profilaxia

Utilizar sapatos ao caminhar na areia e evitar sentar ou deitar em áreas com infestação ativa.

A tunguíase atinge todas as classes sociais e devemos saber como proceder para sua cura e controle. Compartilhe com seus colegas estas orientações!

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Dr. Breno Nery

Médico pediatra especializado em medicina intensiva pediátrica, com graduação pela Universidade Federal de Pernambuco e especialização pela Unicamp.

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