Odontopediatria

Atrasos na Erupção Dentária: o que os Causa e Como Proceder?

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Descubra os principais fatores por trás dos atrasos na erupção dos dentes decíduos e qual a maneira correta de conduzir o paciente.

 

A erupção dos dentes decíduos e a troca destes pelos seus sucessores permanentes é um evento muito esperado pelos pais. Mas, muitas vezes, o que é para ser uma alegria torna-se uma grande preocupação.

A dentição decídua nos seres humanos está constituída de vinte dentes com características similares aos dentes permanentes sucessores, possui funções importantes e é descrita pela Associação Brasileira de Odontopediatria como:

  • Manutenção do espaço para os dentes permanentes;
  • Auxilia no desenvolvimento de ossos e músculos faciais;
  • Proporciona aos dentes permanentes uma oclusão satisfatória;
  • Ajuda na mastigação dos alimentos, etapa importante para facilitar a digestão;
  • Ajuda na pronúncia correta das palavras;
  • Contribui para melhor aparência da criança, permitindo um belo sorriso, o que pode influenciar na sua autoestima.

A dentição permanente se inicia em torno dos cinco a sete anos de idade e em geral se completa apenas em torno dos 18 aos 21 anos de idade. A dentição mista — termo empregado para se referir ao período no qual existem dentes decíduos e permanentes na cavidade bucal — se inicia em torno dos seis anos de idade, após a erupção do primeiro molar permanente, e termina em torno dos 11 anos de idade.1

No processo de erupção dos dentes permanentes, a dentição decídua sofre um fenômeno chamado rizólise fisiológica, o qual orienta a erupção do seu sucessor, proporcionando o posicionamento e o alinhamento para se obter uma oclusão normal. Todavia, quando esse fenômeno sofre desvios por perda precoce, erupção tardia ou ausência do sucessor, isso acarretará alterações no curso da cronologia de erupção.2

 

 

Abaixo está apresentada uma Tabela com a cronologia de erupção dos dentes decíduos e permanentes:

 

Fonte: McDONALD, R. E.; AVERY, D. R. Odontopediatria. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001

 

QUANDO HÁ ATRASO NA ERUPÇÃO DENTÁRIA?

É considerado atraso na erupção dentária o surgimento de um dente na cavidade oral num momento que desvia significativamente das normas estabelecidas para diferentes raças, etnias e sexos. Isso pode também estar relacionado a fatores locais, sistêmicos ou genéticos.3

A erupção dos dentes é normalmente simétrica, tanto na dentição decídua como na permanente. Quando existe uma assimetria eruptiva, durante um certo tempo deve ser pesquisado o fator etiológico causador de tal alteração.4 É importante salientar que variações de 6 meses, em ambos os lados, da época normal da erupção podem ser consideradas normais para determinada criança. 5

Nas Tabelas abaixo estão relacionados os possíveis fatores locais, sistêmicos e genéticos que podem levar à alteração da cronologia da erupção dentaria. 7

 

 

O conhecimento detalhado de cada um desse fatores é de responsabilidade do cirurgião dentista, fato pelo qual foram apresentadas em forma de Tabelas para não se ter uma descrição exaustiva.

O importante é perceber o atraso e encaminhar o paciente ao cirurgião dentista ou a um odontopediatra, para que se possa fazer o diagnóstico e o tratamento da anomalia e devolver uma condição saudável ao sorriso durante toda sua vida.

 

FATORES CAUSADORES DE ATRASO NA ERUPÇÃO DENTÁRIA

Os fatores locais são os mais observados como causadores do atraso da erupção dentaria. Dentre eles, destacamos:

 

Perda precoce da dentição decídua

Essa situação pode acelerar ou retardar a erupção do sucessor permanente, dependendo do estágio de Nolla* que se encontre. Caso essa perda ocorra antes que o sucessor permanente se encontre no estágio 6 de Nolla, haverá um atraso de sua erupção, porque nesse caso o osso geralmente ocupa a área acima do dente, dificultando seu irrompimento. Por isso, o grande esforço que se faz é para a manutenção dos dentes decíduos até sua época normal de esfoliação. 9

* Nolla (1960) propôs um primeiro estudo para se observar o desenvolvimento dos dentes por meio da avaliação em série de radiografias de um mesmo indivíduo. A autora criou dez estágios distintos de mineralização dos dentes superiores e inferiores, que representam os estágios de desenvolvimento. Por esse estudo, a autora pôde observar que os dentes sempre passam pelos mesmos processos sequenciais de maturação e, portanto, a leitura dos estágios de mineralização dos dentes é uma confiável maneira de predizer a idade dentária. Além disso, a autora concluiu que a formação radicular é um indicador de idade dentária superior à época de erupção dos dentes. 8

 

Ortodontia - Robert E. Moyers - fases do dente
Imagem Retirada do livro: Ortodontia – Robert E. Moyers

 

Anquilose

É mais frequentemente observada nos primeiros molares inferiores, dando a impressão de que o dente se encontra submerso na mandíbula ou maxila. Por isso, muitas vezes, utiliza-se o termo “molar submerso” erroneamente, porque o dente anquilosado está em estado de retenção estática, enquanto que nas áreas adjacentes a erupção e o crescimento alveolar prosseguem.

Imagem Retirada do livro: Odontopediatria para crianças e adolescentes de Mc Donald R & Avery D. 9ed

Diversas opções de tratamento têm sido sugeridas para a aquilose, desde a exodontia do elemento até a sua preservação clínica/radiográfica. O tratamento a ser determinado depende de fatores como a idade do paciente, o grau de infraoclusão dentária, o comprometimento da oclusão, a presença e localização do sucessor permanente, o estágio de desenvolvimento do sucessor, a severidade dos danos causados pela anomalia e a condição sistêmica do paciente.10

 

Atraso na erupção com nenhuma anomalia observada na radiografia

Neste caso, o desenvolvimento radicular, a posição do dente e a barreira física (radiograficamente observada ou não) devem ser avaliados. Na ausência de posição ectópica e obstrução física — e se a erupção está dentro dos limites normais —, a observação periódica é a ação recomendada. O desenvolvimento da raiz deve ser seguido por meio de exames radiográficos periódicos e, se o dente estiver atrasado, o tratamento ortodôntico é recomendado quando o dente atingir o estágio 8 de Nolla. 7

 

Dentes supranumerários, cisto e tumores

São exemplos de barreiras físicas observados na radiografia e responsáveis por atraso na erupção de alguns dentes. Nesses casos, se faz necessária a remoção desses obstáculos, para que o dente possa erupcionar.7

 

Fibrose da mucosa gengival

O dente permanente pode perder a força eruptiva devido a essa barreira de tecido, na superfície oclusal ou incisal. Dessa forma, o germe do dente permanente não é capaz de penetrar no tecido gengival. Na clínica odontopediatra, são comuns situações nas quais há a impacção de elementos dentários, fato que pode acarretar transtornos para a dentição em desenvolvimento. Particularmente, uma situação comum é o atraso no processo de erupção dentária, gerando inclinações e/ou giroversões dos dentes adjacentes ao espaço e extrusão do dente antagonista. Para evitar tais transtornos, deve-se indicar a ulotomia (ver figura abaixo), procedimento cirúrgico que consiste na exérese do tecido gengival que reveste a face incisal ou oclusal da coroa dentária de um dente decíduo ou permanente não irrompido, de forma a lhe permitir um caminho livre para ocupar a sua posição normal no arco dentário.11

A) Anestesia infiltrativa local. B) Incisão elíptica do explemento dentário com exposição da borda incisal. C) Exérese do tecido gengival. D) Exposição da borda incisal

 

A ação importante durante o processo de erupção dental é a observação da sequência e da simetria dos dentes que estão erupcionando. O tempo em que isso está ocorrendo não é o fator principal, pois ele pode sofrer variações de 6 a 8 meses da época normal de erupção. A alimentação dos bebês também influencia nesse processo: crianças que se alimentam de comidas líquidas e pastosas tendem a ter uma demora maior na erupção, por isso a importância de seguir as orientações do pediatra quanto à introdução dos alimentos na dieta do bebê.

Se a erupção dos dentes já ultrapassou o período de 6 a 8 meses do tempo normal, nesse momento a criança deve ser encaminhada ao odontopediatra, para uma investigação clínica e radiográfica, visto que são inúmeros os fatores causadores do atraso da erupção dentária. Desta forma, será possível proceder o tratamento para devolver uma condição saudável ao paciente.

 

 

Referências bibliográficas

  1. Reher VGS et al. Introdução a anatomia dental humana. In: Teixeira, LMS et al. Anatomia aplicada a odontologia. Rio de Janeiro. Ed. Guanabara Koogan,2001: Cap. 19:249-250.
  2. Vantine FF. Estudos dos Fatores que Alteram a cronologia de erupção dentaria. SOTAU R. virtual odontol. – Vol. 3 Ano 1-2007.
  3. Teles PB. Atrasos na Erupção dentária: causas e Síndromes. jornaldentistry.pt
  4. Seabra M et al. Anomalias Dentarias de desenvolvimento. Acta Pediatr Port 2008:39(5):195-200.
  5. Mc Donald R, Avery D. Odontopediatria. Guanabara Koogan.7ed 2001,129-148.
  6. Costa ALM, et al. Saúde oral infantil: uma abordagem preventiva. Rev Port Clin Geral 2006;22:337-46.
  7. Suri L., Ggari E, Vastardis H., Delayed tooth eruption: Pathogenesis, diagnosis, and treatment. A literature review. Am J Orthod Dentofacial Orthop 2004;126:432-45
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Dra. Juliana Kuboyama

Cirurgiã dentista com especialização em odontopediatria e odontologia.
Consultório Odondológico – Sorriah Odontologia R. dos Bandeirantes, 531 – Cambuí, Campinas – SP, 13024-011.

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