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Vacina da Dengue – o que Temos Hoje?

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Descubra a eficácia da vacina atual contra a dengue e saiba mais sobre as pesquisas que prometem novas opções de tratamento no futuro próximo.

Atualização 30/11/17 – Recomendação da ANVISA de não vacinar pessoas soronegativas pelo risco de infecção grave se infectados posteriormente pelo vírus

A infecção por um sorotipo de vírus da dengue confere imunidade duradoura para esse mesmo sorotipo, porém não há imunidade e proteção contra infecção pelos outros três. Tendo em vista que infecção por qualquer sorotipo – e principalmente infecções sequenciais heterotípicas – pode cursar com doença grave, é de fundamental importância o desenvolvimento de vacinas que promovam imunidade por longo prazo, com objetivo de redução de casos graves [1].

Inúmeras vacinas contra dengue estão em desenvolvimento. Até o presente momento, somente a vacina Dengvaxia (CYD-TDV), do laboratório Sanofi Pasteur, foi licenciada para uso no Brasil em alguns outros países da América Latina e Sudeste Asiático onde a dengue é endêmica. Essa vacina é composta por 4 vírus quiméricos de febre amarela 17D-Dengue. O vírus vivo atenuado quimérico é construído substituindo genes que codificam as proteínas pré-membranas e de envelope da estirpe da vacina da febre amarela 17D por genes de flavivírus heterólogos (tecnologia ChimeriVax) [23].

 

TESTES E RESULTADOS COM A DENGVAXIA

O licenciamento da Dengvaxia foi baseado em dois grandes ensaios clínicos randomizados de fase III da CYD-TDV, realizados em países da Ásia-Pacífico (Indonésia, Malásia, Filipinas, Tailândia e Vietnã), América Latina e Caribe (Brasil, Colômbia, Honduras, México e Porto Rico), que envolveram 35.000 crianças e adolescentes de 2-16 anos e liberados em 2014 e 2015 [4, 5].

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Nos 2 estudos, os pacientes receberam 3 doses da vacina (0, 6 e 12 meses) e a eficácia foi avaliada após 28 dias da terceira dose da vacina. Os pacientes foram acompanhados por 25 meses. Na análise primária, a eficácia da vacina foi de 57 e 61% para dengue virologicamente confirmada de qualquer gravidade, causada por qualquer sorotipo do vírus. Quando o desfecho foi febre hemorrágica da dengue e hospitalização por dengue, a eficácia foi de 80 – 95%. A eficácia também variou de acordo com o sorotipo, sendo de 75% para os tipos 3 e 4, 50% para o sorotipo 1 e de 35-42% para o Dengue vírus 2. A eficácia foi menor em crianças de 2-5 anos (34-36%) [45].

Na análise primária, a eficácia da vacina foi de 57 e 61% para dengue virologicamente confirmada de qualquer gravidade

Estudo publicado em 2015, com análises intermediárias de acompanhamento de longo prazo e análises integradas de eficácia, observou maior incidência inexplicada de hospitalização por dengue no ano 3 pós vacinal, entre crianças com menos de 9 anos de idade e, principalmente, entre 2-5 anos. Não está claro se esse aumento do risco será sustentado [6].

A OMS recomenda que a vacina CYD-TDV seja introduzida apenas em ambientes geográficos com alta endemicidade da dengue (definida como soroprevalência ≥70% no grupo etário alvo de vacinação ou outros marcadores epidemiológicos adequados). A vacina não deve ser utilizada em zonas onde a soroprevalência é menor que 50% [7].

Em um estudo realizado na Bahia em 2010, a soroprevalência foi de 87,6% para a população geral estudada [8]. Dados do Ministério da Saúde, atualizados em maio de 2015, evidenciam uma elevação de 156% da incidência de dengue nos anos 2014-2015 [9]. Porém faltam dados mais claros quanto a soroprevalência de dengue em cada região do Brasil.

No dia 29/11/2017 a ANVISA, baseada em informações fornecidas pelo laboratório Sanofi-Aventis, passou a orientar que a vacina fosse aplicada somente para pessoas soronegativas. Isso porque informações preliminares e ainda não conclusivas, que apontam que indivíduos podem desenvolver formas mais graves da doença, quando usam a vacina sem ter tido contato prévio com o vírus da dengue.

De acordo com os resultados obtidos e apresentados pela empresa à Anvisa em reunião no dia 27/11/2017, tais dados de seguimento demonstram que, após cinco anos da administração da vacina, permanece positivo o benefício da vacinação na população geral e em indivíduos previamente soropositivos. No entanto, para indivíduos previamente soronegativos, depois de 30 meses após a 1ª dose da vacina, ocorre um aumento do risco de exacerbação da doença, com aumento de casos de dengue severa e hospitalização, ficando este risco acima daquele para indivíduos soronegativos que não receberam a vacina, embora os dados ainda não sejam conclusivos. Conforme esses dados preliminares, tal risco é traduzido em cinco casos de hospitalização para cada 1.000 indivíduos soronegativos vacinados e em dois casos de dengue severa para cada 1.000 indivíduos soronegativos vacinados [Nota Vacina Dengvaxia].

A única vacina disponível no Brasil é, portanto, a Dengvaxia, do laboratório Sanofi Pasteur, produzida na França [1011].

EFICÁCIA DA DENGVAXIA NA REDUÇÃO DE CASOS DE DENGUE

 

 

VACINAS PARA DENGUE EM DESENVOLVIMENTO

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O Instituto Butantan, em parceria com o National Institutes of Health (NIH), está desenvolvendo uma vacina de vírus atenuado contra os 4 sorotipos. O estudo encontra-se em fase III, sendo a vacina testada em 17.000 voluntários em todo território nacional [13].

Ensaios de fase II, que analisam, principalmente, a segurança e a capacidade da vacina induzir a produção de anticorpos, mostraram que ela tem uma capacidade de proteção de 85% a 90% contra os quatro sorotipos da doença. Com uma única dose, ela foi capaz de proteger 97% dos casos de dengue do sorotipo 1, 80% do sorotipo 2, 97% do sorotipo 3 e 100% do sorotipo 4. Os estudos foram feitos com 300 brasileiros e 600 americanos, de acordo com o Instituto Butantan [14]. Provavelmente o esquema proposto será de dose única e deve estar disponível para registro até 2018.

Em testes iniciais, a vacina para dengue sendo desenvolvida no Instituto Butantã tem uma capacidade de proteção de 85% a 90% contra os quatro sorotipos da doença

 

CONCLUSÃO

Há muitos anos existem pesquisas que visam desenvolver uma vacina eficaz contra dengue. Há pouco tempo foi registrada uma vacina para uso em países endêmicos. Os estudos iniciais mostram redução de casos graves, porém são necessárias 3 doses em um intervalo de tempo de 12 meses e ainda não existem dados de seguimento a longo prazo, não sabendo se será necessária dose de reforço no futuro. Estudos mais recentes apontam para maior risco de doença grave para pacientes soronegativos vacinados com a Dengvaxia e atualmente a ANVISA orienta a vacinação somente de pessoas soropositivas. Também não temos dados robustos para uso em crianças menores de 9 anos e adultos acima de 45 anos. Pelo menos mais 5 vacinas estão em desenvolvimento e a previsão é que nos próximos 2 anos tenhamos outras opções de vacina.

Qual a sua opinião quanto a vacina da dengue? Está indicando para os seus pacientes? Deixe sua opinião nos comentários abaixo.

 

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Dr. Antonio Girotto

Médico pediatra especializado em medicina intensiva pediátrica, com graduação pela Universidade do Sul Santa Catarina e especialização pela Unicamp.

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