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Etiologia das Pneumonias Comunitárias da Infância

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As pneumonias são importantes causas de morbidade e mortalidade em todo o mundo. De acordo com a OMS, estima-se que ocorram cerca de 156 milhões de casos de pneumonia por ano em crianças menores de 5 anos, com mais de 20 milhões de casos graves o suficiente para indicação de internação hospitalar [1]. Em 2015, mais de 900.000 crianças morreram de pneumonia, correspondendo a 15% da mortalidade em crianças menores de 5 anos, sendo a segunda maior causa de morte nessa faixa etária [2].

A etiologia das pneumonias na infância varia de acordo com a faixa etária e o ambiente onde a infecção é contraída. Vem sofrendo mudanças nos últimos anos devido à vacinação, principalmente pelas vacinas anti-pneumocócica conjugada e anti Haemofilus influenzae tipo B (Hib) [3]

Os estudos para identificar a etiologia das pneumonias na infância são muito heterogêneos e muitos são pré-vacinação contra Pneumococo e Hib.  Como a cultura direta de tecido pulmonar infectado requer técnicas invasivas, estudos publicados utilizam principalmente exames laboratoriais que fornecem evidência indireta de etiologia. Estes métodos indiretos incluem cultura nasofaríngea, hemocultura, reação em cadeia da polimerase e sorologia. Além do uso de métodos indiretos, a interpretação dos resultados é dificultada pela falta de identificação de um microorganismo em 15 a 35% dos casos e pela frequência das infecções mistas em 23 a 33% dos casos [4567]:

Apesar destes problemas, revisões sistemáticas identificaram algumas tendências consistentes e conclusões sobre a etiologia da Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC) em crianças:

  • S. pneumoniae é a causa bacteriana mais comum de pneumonia em crianças.
  • Os vírus representam, por si só, 14 a 35% dos casos, e até 50% dos casos em crianças pequenas.
  • Os vírus são mais comumente identificados em crianças menores de cinco anos.
  • Em crianças com mais de cinco anos, Mycoplasma pneumoniae e Chlamydophila pneumoniae são mais comuns.

No Brasil a vacina para Hib foi introduzida em 1999, enquanto a vacina conjugada pneumocócica 10-valente (PCV10) foi introduzida em 2010. Um estudo publicado em 2015 mostrou que a vacinação com a PCV10 foi associada à significativa redução das hospitalizações por pneumonia na infância. Adicionalmente, o estudo evidenciou importante redução das hospitalizações por pneumonia em grupos etários não vacinados, sinalizando efeito benéfico indireto conferido pela vacina [8]. Outro estudo publicado em 2016 mostrou que a prevalência de internação por pneumonia adquirida na comunidade foi 19% menor no período pós‐vacinal em crianças [9]. Os estudos apontam que existe uma redução global na incidência de pneumonias por pneumococo, porém existe um aumento de infecção por sorotipos não contemplados na vacina PCV10, principalmente os sorotipos 19A e 3. Tais sorotipos são contemplados somente na vacina pneumocócica conjugada 13 valente [10, 1112]. No Brasil também existe uma discreta elevação da incidência de infecção pelo sorotipo 6C além de maior resistência antimicrobiana do sorotipo 19A.

Crianças menores de 4 meses, além de pneumonia viral, podem apresentar também pneumonia afebril do lactente, que ocorre geralmente entre duas semanas e 3-4 meses de idade. É classicamente causada por Chlamydia trachomatis, mas outros agentes, tais como o citomegalovírus (CMV), Mycoplasma hominis e Ureaplasma urealyticum, também estão implicados.

Em crianças menores de 5 anos, os vírus são os principais agentes etiológicos das pneumonias. Dentre eles, o vírus sincicial respiratório (VSR) é o mais frequentemente envolvido, sendo a pneumonia uma extensão da bronquiolite. No entanto, agentes bacterianos também podem causar pneumonia nesta faixa etária, principalmente Streptococcus pneumoniae e Staphylococcus aureus.

Em crianças acima de 5 anos os agentes mais envolvidos são: Streptococcus pneumoniae, Mycoplasma pneumoniae e Clamydophila pneumoniae.

Nas pneumonias necrotizantes o S. aureus é o agente mais comumente implicado, seguido pelo S. pneumoniae [13]

etilogia-das-pneumonias-na-infancia
Adaptado Uptodate [14]

Com relação às pneumonias bacterianas, o pneumococo continua sendo a principal etiologia em crianças acima de 1 mês de vida. O Hib é etiologia cada vez mais rara em países onde se faz a vacina de forma global. O S. aureus, principalmente CA-MRSA (meticilino resistente adquiridos na comunidade), e o S. pyogenes estão se tornando cada vez mais frequentes, principalmente em pneumonias complicadas com necrose e empiema. O M. pneumoniae e C. pneumoniae também tem sua incidência elevada progressivamente em crianças pré-escolares [1516].

No período neonatal as a etiologia das pneumonias variam conforme a via de transmissão.

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Adaptado Uptodate [15]

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Dr. Antonio Girotto

Médico pediatra especializado em medicina intensiva pediátrica, com graduação pela Universidade do Sul Santa Catarina e especialização pela Unicamp.

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