Vacinas

Opinião: a Mídia e os Movimentos Antivacinação

Em tempos de fake news e matérias sensacionalistas, como informar corretamente o público sobre a importância da vacinação?

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Introdução do Dr. Luis Alberto Verri

O mundo atual é fortemente impactado pela velocidade da informação. A mídia, mais do que nunca, ganha propulsão através da internet e alcança um número cada vez maior de pessoas, muitas vezes em tempo real. A Área de Saúde também vivencia este impacto, que traz consigo aspectos positivos e negativos.

Da mesma forma que a mídia e as redes sociais podem beneficiar as pessoas levando informação confiável, com igual rapidez se propagam matérias sensacionalistas sem embasamento científico e fake news, levando desinformação e, muitas vezes, trazendo consequências preocupantes para a população.

O segmento de imunização vivencia este fenômeno com grande nitidez. Apesar da veiculação de importantes campanhas que reforçam a importância da vacinação, a matérias superficiais e boatos impulsionados pela mídia alimentam os movimentos antivacina, levando insegurança aos pais — que podem chegar ao extremo de optar por não imunizar os filhos.

Os resultados prejudiciais gerados pela divulgação de notícias falsas em relação a vacinas são facilmente verificados ao analisarmos estatísticas, que claramente mostram a redução na cobertura vacinal e o retorno de doenças em fase de erradicação.

Recomendo e compartilho aqui a matéria assinada pela Dra. Monica Levi, que trata do tema “O papel da Mídia e o Antivacinismo”.  Uma abordagem muito sensata e que nos faz refletir sobre o assunto.

Boa leitura!

Dr. Luis Alberto Verri

Dr. Luis Alberto Verri (CRM 51162) é médico pediatra, formado pela UNICAMP (onde realizou a residência em pediatria), especialista pela SBP e atua no Hospital Vera Cruz desde 1985 e com vacinas desde 1996.

 

Clinica PREVINA Campinas - vacinas

 

 

 

O papel da mídia versus o antivacinismo

Por Monica Levi

Originalmente publicado em Revista Imunizações — SBIm: Levi, M. O papel da mídia versus o antivacinismo. Imunizações. 2018; 11(3):14-6. Reprodução autorizada.

 

Nos tempos atuais, em que as notícias correm pela mídia e redes sociais numa velocidade enorme, cabe analisarmos o quanto pode haver de benefícios ou prejuízos quando informações médicas são divulgadas por estes meios, particularmente a mídia digital.

Revista Imunizacoes - Materia Antivacinacao

A mídia, no sentido amplo da palavra, pode funcionar como importante aliada da classe médica na divulgação de informações à população, com matérias em jornais, revistas, programas e entrevistas em rádio e TV ou, ainda, na internet. Quando esses conteúdos são elaborados por profissionais sérios e comprometidos, que procuram fontes seguras de informação, a mídia torna-se importante aliada das equipes de saúde, ao expandir o alcance dos dados, em linguagem mais adaptada ao público leigo e de forma mais abrangente. Rapidamente, um maior número de pessoas com acesso aos meios de comunicação é impactado sobre assuntos diversos referentes às imunizações.

Citamos como exemplos dessa contribuição:

  • a divulgação dos calendários preconizados para cada faixa etária — assim como os riscos de não utilizar as vacinas recomendadas;
  • notícia sobre surtos e epidemias;
  • as várias campanhas do Ministério da Saúde, entre outros assuntos relevantes no campo das vacinas.

São inúmeras as formas de comunicação que ampliam informações, sobretudo para aqueles que nem sempre têm a oportunidade de consultas preventivas com médicos que poderiam (e deveriam) orientar medidas para preservar a saúde de seus pacientes.

Porém, quando informações são divulgadas de forma irresponsável, por leigos ou mesmo profissionais da Saúde que publicam matérias sensacionalistas, desprovidas de dados comprobatórios e sem evidência científica alguma, pode haver enorme prejuízo, chegando inclusive a comprometer os esforços dos programas de imunização, como vemos acontecer com frequência em todo o mundo.

O surto de sarampo na Europa serve como bom exemplo de doença imunoprevenível em descontrole em países desenvolvidos, onde não há falta de vacina nem dificuldades logísticas para imunizar as pessoas.

medico aplicando vacinaUm dos principais responsáveis por essa situação naquele continente são os movimentos antivacinação que levaram à recusa importante parcela da população. A consequência são as baixas coberturas que resultaram em milhares de casos da doença. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que, em 2017, o sarampo cresceu 300% em relação ao ano anterior no continente europeu, afetando mais de 21 mil pessoas e causando 35 mortes. (1)

A confiança é essencial para o sucesso no controle ou erradicação de doenças, visto que, para atingir o maior benefício potencial, é preciso alcançar altas taxas de cobertura vacinal. Quando se compromete essa fé nas vacinas, com consequente redução da adesão, o resultado pode ser catastrófico.

Uma quantidade relevante da população é altamente sugestionada pela mídia sensacionalista, sofre influência em suas opiniões e condutas sem nem ao menos se preocupar em conhecer a seriedade da fonte do que leem. Além disso, a divulgação midiática de materiais elaborados por grupos antivacinistas colabora de maneira importante para provocar a insegurança das pessoas em relação aos imunobiológicos.

Temos visto, aqui no Brasil, a diminuição das taxas de cobertura, não apenas para as novas vacinas mais recentemente disponibilizadas pelo PNI, como também para as antigas, das quais tínhamos orgulho dos altos índices de cobertura alcançados. Além da falta de percepção de parte da população sobre a importância de prevenir doenças infecciosas pela imunização, dados negativos na mídia, gerando medo ou insegurança, certamente são mais um fator que contribui para a situação atual de queda.

As redes sociais também têm esse papel ambíguo, ora beneficiando, ora prejudicando a adesão às vacinas. Por exemplo, para as participantes de grupos de mães de bebês no Facebook existe o benefício de poderem trocar informações e experiências sobre a imunização de seus filhos e, quando surge uma dúvida comum, podem pedir o auxílio de um profissional da área para esclarecê-la.

Essa possibilidade de comunicação permite — além de compartilhar seus questionamentos, medos e hesitações — compreender a importância das vacinas que estão sendo aplicadas em seus filhos. Assim, as mães sentem-se mais confiantes no processo de imunização de seus bebês.

Por outro lado, existem grupos antivacinistas, ou indivíduos isolados, que, com o intuito de disseminar o medo aos imunobiológicos, poluem a mídia com informações negativas e recomendam que as pessoas recusem qualquer tipo de vacinação; postam matérias falsas — desprovidas de qualquer evidência científica e teorias sem comprovação alguma — em blogs, revistas gratuitas distribuídas em pontos comerciais, grupos de Facebook ou de Whatsapp.

Essas notícias, disseminadas com alta velocidade, em segundos atingem enorme número de pessoas. O compartilhamento em redes sociais de situações assustadoras (por vezes experiências pessoais negativas relacionadas temporalmente com o gesto vacinal, mas sem nenhuma relação de causa) gera medo e dúvidas quanto à segurança dos imunobiológicos, argumento mais citado nas pesquisas dos motivos que levam à recusa de vacinas.

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Fonte: Gazeta do Povo

Vejamos, a seguir, o ocorrido na cidade paulista de Bertioga durante campanha contra o HPV para meninas, em âmbito escolar. Em sua segunda fase, iniciada em março de 2017, 11 meninas de um mesmo colégio apresentaram mal-estar após a vacinação. Elas foram levadas ao pronto-socorro local, avaliadas por médico que não constatou alteração física alguma, sendo dispensadas.

No entanto, três meninas insistiam na continuidade dos sintomas e foram internadas para investigação. Uma delas dizia “não estar sentindo as pernas”, apesar de a verificação multiprofissional ter descartado qualquer tipo de lesão e concluído se tratar de “reação de ansiedade pós-vacinação” (descrita em vários países como sendo gerada pela aflição e pelo medo da dor, sem qualquer relação com o conteúdo injetado).

O episódio ganhou grande destaque, e matérias jornalísticas foram publicadas antes mesmo de a vigilância epidemiológica ter investigado o caso e prestado esclarecimento à população. As próprias meninas postaram selfies em redes sociais, enquanto internadas, dizendo que a vacina havia paralisado suas pernas.

Toda a situação interferiu negativamente na aceitação da vacina HPV, contribuindo para uma redução nas taxas de cobertura para a segunda dose. E também reforça que é preciso grande habilidade para gerenciar situações como esta e não deixar que informações disseminadas pela mídia e redes sociais afetem a confiança da população, que pode ser facilmente comprometida.

Esse é o dever dos profissionais da Saúde que trabalham na prevenção de doenças. É um trabalho árduo, que exige sempre continuidade. Porém, decerto, traz enorme benefício para nossa população!

 

 

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS). Escritório Regional para a Europa. Europe observes a 4-fold increase in measles cases in 2017 compared to previous year. Copenhague, 19 Fev 2018. [Acesso em 17 ago 2018]. Disponível em: http://www.euro.who.int/en/media-centre/sections/press-releases/2018/europe-observes-a-4-fold-increase-in-measles-cases-in-2017-compared-to-previous-year
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Dr. Luis Alberto Verri

Dr. Luis Alberto Verri (CRM 51162) é médico pediatra, formado pela UNICAMP (onde realizou a residência em pediatria), especialista pela SBP e atua no Hospital Vera Cruz desde 1985 e com vacinas desde 1996.

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