Vacinas

Sarampo: é possível vacinar pacientes imunodeprimidos?

Orientações sobre a vacinação contra sarampo em pacientes com doenças imunomediadas (reumatológicas, psoríase e doença intestinal inflamatória).

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O preocupante crescimento de casos de sarampo no Brasil e no mundo coloca a população em alerta. Outrora erradicado no país, o sarampo voltou a ocorrer em solo brasileiro: 646 casos de sarampo confirmados até a semana epidemiológica 30 (21/07 a 27/07/2019) em diferentes regiões. Quando estendemos o olhar para os dados da Organização Mundial de Saúde, notamos o crescimento das ocorrências em nível global, com surtos em 168 países e mais de 170.000 casos confirmados no mundo.

A preocupação em relação ao sarampo é totalmente justificável, pois trata-se de uma doença infecciosa altamente contagiosa, que pode gerar sequelas e até mesmo levar a óbito. A baixa adesão às campanhas de vacinação, seja em função do desconhecimento da doença (que, lembrando, estava erradicada do país), seja em função dos boatos alardeados por grupos antivacinais, abriu as portas para a ocorrência de casos de sarampo não só em crianças, mas também em indivíduos adultos.

 

A vacinação contra o sarampo

O caminho para evitar novos surtos de sarampo passa inevitavelmente pela imunização. É necessário empenho para atingir a cobertura vacinal de 95% da população, por meio de campanhas e de divulgação de informações confiáveis que ajudem a quebrar a resistência daqueles que ainda associam a vacinação às fake news.

Segundo as recomendações do Ministério da Saúde, todos os indivíduos entre 1 a 29 anos devem receber duas doses de vacina contra sarampo para assegurar a proteção contra a doença. Adultos com idade entre 30 e 49 anos de idade, sem comprovação de nenhuma dose, devem tomar ao menos uma dose da vacina tríplice viral (SCR). A vacina não é recomendada a gestantes, bebês menores de 6 meses de idade e pessoas em estado de imunodepressão.

A reversão do cenário atual de ocorrência de sarampo no Brasil é um compromisso que envolve todos, e cabe também a nós, da área médica, promover a conscientização sobre a importância das vacinas.

 

SARAMPO: COMO PROTEGER INDIVÍDUOS IMUNODEPRIMIDOS?

Mas como proteger indivíduos imunodeprimidos contra sarampo? Quais as restrições e recomendações em relação à vacina?

Recomendo a leitura da Nota Técnica a seguir, que reúne orientações publicadas pelas Sociedades Brasileiras de Reumatologia, Infectologia, Imunização e do Grupo de Estudo de Doenças Intestinal Inflamatória sobre a vacinação contra sarampo para pacientes com doenças imunomediadas.

 

 

Advertências e recomendações das sociedades de Reumatologia, Infectologia, Imunização e de Doenças intestinais inflamatórias (GEDDIB):

  • A vacina tríplice viral contém componentes vivos atenuados; sendo assim, é contraindicada para pacientes sob imunossupressão.
  • Como sabemos que existem vários graus de imunossupressão e frente ao risco epidemiológico, a indicação da vacina deve ser discutida com o médico especialista que acompanha o paciente, mediante decisão compartilhada de planejamento para que a vacina seja realizada de forma segura e eficaz. Seguir orientações do Quadro 1.
  • A vacina está indicada para pacientes não imunossuprimidos e pode ser considerada para aqueles em imunossupressão leve, levando em conta a relação de risco-benefício, em decisão compartilhada com o paciente.

 

Nos casos em que a contraindicação é absoluta (em alto grau de imunossupressão):

  • Enfatizar a importância da vacinação de todos os contactantes do paciente, para proteção indireta.
  • Evitar deslocamentos para áreas de risco.
  • Caso a doença de base estiver controlada, discutir com o especialista que acompanha o paciente, considerando riscos e benefícios, a suspensão das medicações, a fim de proceder à vacinação com segurança e garantir uma resposta adequada à vacina. Essa decisão deve ser compartilhada e centrada no paciente, mediante orientações de períodos mínimos de suspensão da medicação que estiver utilizando, conforme mostra o Quadro 2.
  • Caso haja a suspensão do tratamento para a vacinação, deve-se aguardar um intervalo de quatro semanas após a aplicação da vacina para reiniciar o tratamento com o medicamento responsável pela imunossupressão. 

 

QUADRO 1. Posicionamento da Sociedade Brasileira de Reumatologia quanto ao grau de imunossupressão conferido pelas drogas utilizadas para o tratamento dos pacientes com doenças reumáticas imunomediadas

Pacientes considerados não imunossuprimidos

  • Clinicamente estáveis, que estiverem nas seguintes condições:
    • Sem tratamento
    • Recebendo apenas sulfassalazina ou sulfato de hidroxicloroquina
    • Em uso de corticosteroide tópico, inalatório, periarticular ou intra-articular

 

Pacientes considerados sob baixo grau de imunossupressão

  • Metotrexato ≤ 0,4 mg/kg/semana ou ≤ 20 mg/semana
  • Leflunomida em doses de 20 mg/dia
  • Tratamento diário com corticosteroides em doses < 20 mg/dia de prednisona ou equivalente durante curto período de tempo (< 2 semanas)

 

Pacientes considerados sob alto grau de imunossupressão

  • Tratamento diário com corticosteroides em doses ≥ 20 mg/dia (ou > 2 mg/kg/dia para pacientes com peso < 10 kg) de prednisona ou equivalente em período ≥ 14 dias
  • Pulsoterapia com metilprednisolona
  • Utilizando micofenolato de mofetila ou sódico, ciclosporina, ciclofosfamida, tacrolimus, azatioprina
  • Inibidores de JAK, como tofacitinibe
  • Imunomoduladores biológicos

 

QUADRO 2. Intervalo recomendado entre interrupção da terapia imunossupressora e administração de vacinas vivas atenuadas

HCQ: sulfato de hidroxicloroquina; MTX: metotrexato; SSZ: sulfassalazina. # Fica a critério médico a realização do protocolo de eliminação da droga antes de indicação da vacina. *Recomenda-se que pacientes que tenham recebido rituximabe devam também ter normalização dos níveis de IgG e IgM para receber a vacinação contra vírus vivo atenuado.

 

 

REFERÊNCIAS CONSULTADAS

 

Sobre os autores

Dr. Luis Alberto Verri

Dr. Luis Alberto Verri (CRM 51162) é médico pediatra, formado pela UNICAMP (onde realizou a residência em pediatria), especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria, atua no Hospital Vera Cruz desde 1985 e com vacinas desde 1996.

Prof. Dra. Beatriz Helena de Mattos Araujo Verri

Graduada em enfermagem pela Unicamp, com especialização em Cardiologia e em Administração Hospitalar. Possui doutorado em Saúde Coletiva também pela UNICAMP. Atualmente é professora adjunta doutora da Universidade São Francisco e da Faculdade São Leopoldo Mandic.

 

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Dr. Luis Alberto Verri

Dr. Luis Alberto Verri (CRM 51162) é médico pediatra, formado pela UNICAMP (onde realizou a residência em pediatria), especialista pela SBP e atua no Hospital Vera Cruz desde 1985 e com vacinas desde 1996.

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