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Vacina da Febre Amarela – Quais os Eventos Adversos?

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A Vacina da Febre Amarela é uma das mais eficazes e seguras. Porém, efeitos adversos, dos mais leves aos severos, podem ocorrer. Resumimos os principais em nosso post.

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Tendo em vista o surto de Febre Amarela (epizootia) que vem ocorrendo este ano e a maior frequência de vacinação, achamos importante esclarecer todas as dúvidas quanto aos eventos adversos relacionados à vacina, mesmo porque este é um questionamento frequente dos pacientes.

A Vacina da Febre Amarela confere imunidade em 95% a 99% dos vacinados

A Vacina da Febre Amarela (VFA) é altamente imunogênica (confere imunidade em 95% a 99% dos vacinados) e tem sido utilizada para a prevenção da doença desde 1937. É reconhecidamente uma das vacinas mais eficazes e seguras, sendo bem tolerada. Cerca de 5% das pessoas vacinadas poderão apresentar manifestações locais, como dor e eritema local, e de 2–10% poderão apresentar febre, cefaleia e mialgia a partir do 3–4º dia. Entretanto, eventos adversos graves e até fatais têm sido notificados e estão relacionados à disseminação do vírus vacinal.

 

DETALHES DA VACINA DE FEBRE AMARELA

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CONSTITUIÇÃO

Pó liofilizado injetável composto por vírus vivo atenuado da febre amarela cepa 17DD ou equivalente, cultivado em ovos embrionados de galinha.

 

EVENTOS ADVERSOS

Eventos adversos associados à VFA podem ocorrer, como reações locais e sistêmicas, estas últimas variando de moderadas a graves, inclusive com óbito.

 

Reações locais: 

A VFA é administrada pela via subcutânea e a manifestação mais frequentemente referida é a dor no local de aplicação (4% em adultos, e um pouco menos em crianças pequenas), de curta duração (primeiro e segundo dias após aplicação, podendo chegar a 5 dias), autolimitada e de intensidade leve ou moderada.

Manifestações sistêmicas:

Manifestações gerais: febre, cefaleia e mialgia têm sido os eventos mais frequentemente relatados após a VFA. A combinação dos três sintomas foi atribuível à VFA em aproximadamente 4% dos primovacinados e em menos de 2% dos indivíduos revacinados, nos três primeiros dias após a vacinação, com duração de 5 a 10 dias.

Eventos adversos graves e VFA (EAG-VFA): Os eventos adversos graves incluem as reações de hipersensibilidade, doença neurológica aguda (encefalite, meningite, doenças autoimunes com envolvimento do sistema nervoso central e periférico) e doença viscerotrópica aguda. No Brasil, no período de 2007 a 2012, a incidência de EAG relacionados à vacina da febre amarela foi de 0,42 casos por 100 mil doses administradas.

No Brasil, de 2007 a 2012, a incidência de eventos adversos graves relacionados à vacina da febre amarela foi de 0,42 casos por 100 mil doses administradas

  • Reações de hipersensibilidade: Podem ocorrer formas menos graves de reações de hipersensibilidade imediata, incluindo erupção cutânea ou urticária. A vacina contra a febre amarela raramente causa anafilaxia. Os dados do Sistema de Relatório de Eventos Adversos de Vacina de 2000–2006 indicam uma taxa de notificação de anafilaxia de 1,8 casos por 100.000 doses (CDC). No Brasil, em estudos de pós-comercialização, a taxa de anafilaxia foi de 0,023 casos por 100 mil doses aplicadas, para o período de 1999 a 2009. As reações de hipersensibilidade podem ocorrer como reação a qualquer um dos componentes da vacina.
    • Acredita-se que as reações de hipersensibilidade ocorram em resposta à proteína do ovo, proteína de frango ou gelatina que estão presentes na vacina como resultado do processo de produção. Além disso, o tampão do frasco de vacina contém látex natural que pode causar reação alérgica.
    • Em situações de risco elevado para febre amarela, os indivíduos com história de hipersensibilidade leve ou moderada ao ovo de galinha e seus derivados devem receber a VFA em serviços capacitados para o atendimento de reações de hipersensibilidade aguda.
  • Doença neurológica aguda associada à vacina febre amarela (DNA-VFA): tanto o sistema nervoso central como o periférico podem ser acometidos. De maneira geral, as complicações neurológicas relacionadas à VFA podem ser causadas diretamente pela invasão do vírus vacinal no sistema nervoso central ou pelas reações inflamatórias e desmielinizantes, representadas por manifestações autoimunes nas quais anticorpos e/ou células T produzidas em resposta à vacina causam lesão ao sistema nervoso central e periférico.
    • A DNA-VFA é um evento adverso grave, mas raramente fatal. Foi relatado quase que exclusivamente após a vacinação primária. O intervalo de início é de 3–28 dias após a vacinação com o início médio no dia 14. Com base numa análise recente dos dados, a taxa de DNA-VFA é de aproximadamente 0,8/100.000 doses distribuídas (CDC). No Brasil, os casos de DNA-VFA notificados ao SIEAPV (Sistema Nacional de Vigilância dos Eventos Adversos Pós-Vacinação), no período 2007 a 2012, foram de 116 casos, ou seja, 0,2 casos por 100 mil doses aplicadas. A maioria das pessoas com DNA-VFA apresentam recuperação completa.
    • As manifestações causadas diretamente pelo vírus vacinal são denominadas doenças neurotrópicas, podendo acometer o encéfalo e as meninges e levar a um quadro de encefalite e/ou meningite. As afecções desmielinizantes podem acometer tanto o encéfalo quanto as raízes nervosas, causando, respectivamente, a encefalomielite aguda disseminada (ADEM) ou a síndrome de Guillain-Barré (SGB), e acredita-se que sejam manifestações autoimunes.
    • As manifestações clínicas dos eventos adversos neurológicos causados pela vacinação são variadas e assemelham-se àquelas comumente verificadas entre os indivíduos não vacinados. Febre, cefaleia, alterações do nível de consciência e rigidez de nuca podem estar presentes nos pacientes com meningoencefalite asséptica. A paralisia flácida, simétrica e ascendente é um sintoma comumente encontrado nos pacientes com SGB. Convulsões, alterações da consciência e desordens motoras (hemiplegia, ataxia, entre outras) também podem estar presentes nos pacientes com ADEM.
  • Doença viscerotrópica aguda associada à vacina febre amarela (DVA-VFA): é uma doença semelhante à febre amarela de tipo selvagem, na qual o vírus da vacina prolifera em múltiplos órgãos, causando síndrome de disfunção de múltiplos órgãos ou falência multiorgânica e morte em pelo menos 60% dos casos. Desde que esta complicação foi reconhecida pela primeira vez em 2001, mais de 65 casos foram relatados em todo o mundo.
    • Sua gravidade varia desde sintomas leves até um quadro grave de falência de múltiplos órgãos e óbito. A doença é resultante da replicação e da disseminação do vírus 17D ou 17DD, demonstrado por estudos virológicos em amostras de necropsia dos pacientes vacinados.
    • Os sintomas iniciais de DVA-VFA são inespecíficos, incluindo febre, cefaleia, astenia, mialgia, artralgia, náusea, vômito, diarreia e dor abdominal semelhantes às manifestações da doença febre amarela. Com a progressão da doença, pode ocorrer icterícia, trombocitopenia, elevação de transaminases hepáticas, bilirrubinas totais e creatinina. O quadro mais grave é caracterizado por hipotensão, hemorragia, insuficiência renal aguda e insuficiência respiratória. Manifestações menos frequentes incluem rabdomiólise e coagulação intravascular disseminada.
    • A presença do vírus ou partículas virais em tecidos pode ser detectada usando técnicas de isolamento viral, RT-PCR e imuno-histoquímica. A cepa vacinal pode ser detectada no sangue, por cultura viral ou amplificação do RNA viral, por intermédio da reação de cadeia de polimerase-transcriptase reversa (RT-PCR).
    • A viremia ocorre normalmente após a primeira dose de vacina, não se repetindo nas doses subsequentes (reforço), tendo sido demonstrada acontecendo geralmente nos primeiros três a oito dias após a vacinação (média de 4 dias). O pico da viremia é menor de 1.000 PFU/mL. Estes dados se constituem importante instrumento para estabelecer os níveis de certeza de causalidade entre a vacina e a doença viscerotrópica.
    • Em boletim epidemiológico publicado em 2008, a OMS divulgou que a frequência estimada para doença viscerotrópica foi de 0,3 a 0,4 casos por 100 mil doses distribuídas de vacinas. No Brasil, no período de 2007 a 2012, o risco de doença viscerotrópica aguda relacionada à vacina febre amarela foi de 21 casos, ou seja 0,04 casos por 100 mil doses administradas. Em março de 2010, o Brighton Collaboration identificou 60 relatos publicados e não publicados de DVA-VFA na Ásia, Austrália, Europa e Américas do Norte e do Sul. Todos os casos ocorreram em primovacinados. As vacinas eram de diferentes subcepas do vírus 17D e produzidas por diversos fabricantes. O intervalo entre a vacinação e o início dos sintomas foi, em média, de três dias (variando de um a oito dias); o intervalo médio entre a vacinação e o óbito foi de dez dias (variando de sete a 30 dias).
    • O tratamento para a DVA-VFA é de suporte. Não existe terapia específica.

 

CLASSIFICAÇÃO DE EVENTOS ADVERSOS GRAVES ASSOCIADOS À VFA

Critérios específicos para a classificação da doença neurológica aguda
associada à VFA (DNA/VFA) (OMS, 2008). Clique na imagem para ampliar.

 

Critérios específicos para a classificação da doença viscerotrópica aguda
associada à VFA (DVA/VFA) (OMS, 2008). Clique na imagem para ampliar.

 

CONTRAINDICAÇÕES PARA VACINAÇÃO

REFERÊNCIAS

PPED- manual vigilancia epidemiologicaManual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação. Ministério da Saúde. 3ª Edição, 2014.

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hotsite febre amarela cdcHotsite Yellow Fever (“Febre Amarela”) do Centers for Disease Control.

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Dr. Antonio Girotto

Médico pediatra especializado em medicina intensiva pediátrica, com graduação pela Universidade do Sul Santa Catarina e especialização pela Unicamp.

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