Alergia & ImunologiaGastroenterologiaPediatria GeralPneumologia

Leite: meu Filho Alérgico ou Intolerante? Eis a Questão

Compartilhe conhecimento:

Qual a diferença entre alergia e intolerância ao leite de vaca, e como diagnosticar corretamente tais condições? Acompanhe neste post especial do PortalPed.

 

Com toda certeza você já deve ter se deparado no consultório ou no pronto socorro com uma família que tenha essa dúvida diagnóstica, ou que não tenha sido orientada corretamente. Meu filho é alérgico ou intolerante ao leite? Vamos relembrar aqui alguns aspectos gerais para auxiliar no diagnóstico diferencial entre essas duas situações clínicas, pois isso é essencial para a correta orientação e condução do caso.

A alergia à proteína do leite de vaca é a alergia alimentar mais comum da infância.

A alergia alimentar é muito frequente em crianças e a alergia à proteína do leite de vaca é a alergia alimentar mais comum da infância. Vamos nos limitar a conversar neste post sobre o leite de vaca, que é o leite não humano mais consumido no Brasil.

Em primeiro lugar, precisamos relembrar sua composição: [1]

  • Proteínas: em média 3,5 g/100 ml. Desses 3,5 g, cerca de 80% são representados pela caseína e o restante especialmente pela alfa-lactoalbumina e pela beta-lactoglobulina
  • Carboidratos: quase na totalidade Lactose
  • Lipídeos: triacilgliceróis, lecitina, esteróides, vitaminas lipossolúveis, ácidos graxos livres
  • Vitaminas e sais minerais.

Em segundo lugar, relembremos a definição de alergia:

Alergia é uma reação de hipersensibilidade iniciada por mecanismos imunológicos, mediada por anticorpos (IgE) ou células [2].

Sendo assim, é necessário que haja exposição de um antígeno, ou ao menos do epítopo, ou determinante antigênico, aos receptores celulares ou aos anticorpos para que seja desencadeada a reação imunológica. O carboidrato não tem epítopos e, portanto, não desencadeia alergia. Sendo assim, não existe a entidade nosológica “alergia à lactose”.

Não existe a entidade nosológica “alergia à lactose”.

 

SINTOMATOLOGIA DA ALERGIA À PROTEÍNA DO LEITE DE VACA

leite-intolerancia-ou-alergia

A sintomatologia da alergia à proteína do leite de vaca (APLV) varia de acordo com o tipo de reação de hipersensibilidade envolvida, assim como sua intensidade também varia de acordo com o estado imunológico do paciente e a quantidade de antígeno envolvido.

As reações mediadas por IgE são aquelas que manifestam-se, de maneira geral , dentro de alguns minutos a poucas horas após a ingestão do alimento e compreendem desde um quadro de urticária até anafilaxia. As mediadas por células normalmente são mais tardias, sendo exemplos a proctocolite e a enteropatia induzida por proteínas. Pode haver ainda quadros mistos, com resposta imune tanto celular quanto mediada por anticorpos, com manifestações como as gastroenteropatias eosinofílicas e a dermatite atópica [3].

As manifestações cutâneas e gastrointestinais são as mais frequentes [3]. Ao atendermos uma criança com dermatite atópica moderada a grave, a APLV deve ser sempre um diagnóstico diferencial a ser descartado.

A asma, como entidade isolada, raramente está associada com alergia alimentar [4]. Ela pode ser causada pela APLV, mas normalmente está acompanhada de quadros cutâneos e gastrointestinais [3].

Ao recebermos, portanto, uma criança com dermatite atópica persistente, moderada a grave, com sinais de proctocolite, como diarreia com muco ou presença de sangue nas fezes, dificuldade de ganho de peso, reação anafilática, urticária ou angioedema, devemos levantar a suspeita de APLV e instituir o tratamento e as orientações adequadas.

 

TRATAMENTOS

O principal tratamento é a exclusão da proteína que está levando à sintomatologia. A melhora completa dos sintomas deve ocorrer num prazo máximo de 6 semanas. Tal exclusão é feita de acordo com a faixa etária.

Não se deve, a princípio, suspender o aleitamento materno. Devemos orientar a mãe a modificar sua dieta.

Não se deve, a princípio, suspender o aleitamento materno. Devemos orientar a mãe a modificar sua dieta, fazendo a exclusão dos alimentos que apresentem a proteína envolvida, assim como outros alimentos que, por apresentarem epítopos semelhantes, possam desencadear reação de hipersensibilidade de forma cruzada. Caso seja necessário o uso de fórmulas lácteas, recomenda-se o uso daquelas que apresentam a proteína extensamente hidrolisada, ou então as fórmulas de aminoácidos. Você pode encontrar a relação destas fórmulas no nosso post sobre o assunto. Nas crianças acima de 6 meses, podemos utilizar as fórmulas de proteína de soja. Além disso, lembrar de excluir também da dieta da criança os alimentos fontes da proteína envolvida no mecanismo alérgico. Os leites de outros mamíferos NÃO devem ser utilizados como substituto do leite de vaca pela semelhança em sua composição [3].

Ressaltamos que as dietas de exclusão de longa duração podem ocasionar distúrbios nutricionais nas crianças e não devem ser realizadas a ermo, especialmente sem forte suspeita diagnóstica.

 

E A INTOLERÂNCIA À LACTOSE?

Por outro lado, temos o diagnóstico de intolerância à lactose. Tal entidade nosológica é caracterizada pela inabilidade do intestino em digerir e absorver a lactose. Ela pode ser primária (pela deficiência enzimática propriamente dita) ou secundária (a infecções intestinais, por exemplo) [5].

A lactose não digerida e absorvida chega ao cólon e ao ceco, aonde ela vai ser metabolizada pelas bactérias da flora intestinal e convertida em ácidos graxos de cadeia curta e hidrogênio. Isso vai levar à sintomatologia característica de distensão abdominal, cólicas, flatulência e diarreia. Tal entidade não causa, portanto, sintomas sistêmicos compatíveis com alergia.

A intolerância à lactose não causa, portanto, sintomas sistêmicos compatíveis com alergia.

Com o diagnóstico confirmado (suspeita clínica, com história típica, além de testes confirmatórios como o teste de tolerância à lactose), a linha de tratamento é a restrição da oferta deste carboidrato. Não há necessidade de se utilizar fórmulas com proteínas parcialmente ou totalmente hidrolisadas.

Vale lembrar que, na maioria dos casos, a intolerância é parcial, ou seja, o paciente consegue digerir uma quantidade variável de lactose e só apresenta sintomas se ingerir uma quantidade superior ao seu limite digestório. Ressaltamos ainda que, como a lactase é uma enzima que se localiza predominantemente nas cristas das vilosidades intestinais, é comum ocorrer uma intolerância temporária à lactose durante processos diarreicos agudos secundários à depleção da lactase por lesão da mucosa intestinal [5].

 

CONCLUSÃO

Nossa principal dica é: atente-se para a história do paciente. Encaminhe a um especialista se tiver dúvidas. Eduque seu paciente e os cuidadores, faça-o compreender sua situação, para que ele também tenha capacidade de gerir sua própria alimentação.

Gostou do post? Comente, compartilhe.

 

Etiquetas
Mostrar mais

Dr. Sidney Volk

Médico pediatra especializado em medicina intensiva pediátrica, com graduação e especialização pela Unicamp. Membro do corpo editorial do PortalPed.

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo