Infectologia

Como pediatras receitam antibióticos ao redor do mundo? Estudo global revela grandes discrepâncias

Pesquisa publicada no The Lancet Global Health revela perfil de prescrição de antibióticos para crianças em 56 países diferentes.

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A CLASSIFICAÇÃO “AWARE”

A Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou, em 2017 [1], uma classificação de antibióticos chamada de “AWaRe“, acrônimo de Access, Watch and Reserve Index (algo como Índice de Acesso, Acompanhamento e Reserva, em tradução livre). De acordo com esse índice, os antibióticos são divididos em três grupos:

  • ACCESS: O primeiro grupo é o de antibióticos de espectro restrito, considerados como escolha primária e secundária na grande maioria das infecções. Eles formam o grupo “Access”, ou “Acesso”. Chamaremos, neste texto, de “Grupo 1“;
  • WATCH: Na segunda classificação entram antibióticos de espectro mais amplo, que devem ser usados como segunda escolha no tratamento de infecções, e de maneira mais controlada; este é o grupo “Watch“, que chamaremos aqui de “Grupo 2“;
  • RESERVE: Por fim, os antibióticos que devem apenas ser utilizados como último recurso terapêutico em casos de infecção resistente a múltiplos medicamentos formam o grupo “Reserve” (“Grupo 3“).

O padrão de cores que utilizamos acima e ao longo do texto reflete as indicações visuais da própria OMS.

Além de ser um guia importante sobre o uso de antibióticos – medicamentos essenciais, mas que exigem utilização cuidadosa e supervisionada – na clínica médica, o índice AWaRe funciona também como uma referência quanto ao uso destes medicamentos em nível nacional e global, podendo indicar, por exemplo, em que locais os antibióticos dos Grupos 1 e 2 estão sendo utilizados em demasia e contribuem, assim, para o aumento da resistência microbiana.

Baseado nessa premissa, um grupo de pesquisadores da Escola de Medicina St. George, da Universidade de Londres, analisou dados sobre uso de antibióticos em mais de 23 mil crianças, de 56 países ao redor do mundo. Os dados são oriundos dos estudos GARPEC e Global PPS, e incluíram países de alta, média e baixa renda per capita. As conclusões foram publicadas na edição de julho do periódico científico The Lancet Global Health.

PORTALPED - Estudo AWARE antibioticos The Lancet Global HealthO ESTUDO

  • Use of the WHO Access, Watch, and Reserve classification to define patterns of hospital antibiotic use (AWaRe): an analysis of paediatric survey data from 56 countries
  • Yingfen Hsia, Brian R Lee, Ann Versporten, Yonghong Yang, Julia Bielicki, Charlotte Jackson et al
  • The Lancet Global Health, Volume 7, ISSUE 7, Pe861-e871, July 01, 2019.
Ler artigo na íntegra (The Lancet)

Os resultados mostraram uma variação substancial no uso dos diferentes grupos de antibióticos ao redor do mundo. O PortalPed resume, a seguir, os principais achados da pesquisa.

A Regra dos 60%

Segundo a OMS, os medicamentos do Grupo 1 devem corresponder a pelo menos 60% das prescrições totais de antibióticos em qualquer país.

Apenas 07 países estudados chegaram perto deste número: Eslovênia, Espanha, Chile, Bósnia e Herzegovina, Japão, Quirguistão e África do Sul.

 

O USO DOS DIFERENTES GRUPOS DE ANTIBIÓTICOS AO REDOR DO MUNDO

O estudo analisou não apenas quais antibióticos foram adotados na clínica pediátrica nesses 56 países, como também quais infecções eles deveriam tratar. Os resultados mostraram variações bastante relevantes entre as práticas de uso nas diferentes regiões do planeta.

PORTALPED - antibioticos - uso ao redor do mundo -estudo
Porcentagem do uso total de antibióticos em crianças pela classificação AWAre da OMS por país. Fonte: The Lancet.

 

Como exemplo, o uso de medicamentos do Grupo 1 – ou seja, aqueles indicados pela OMS como escolha primária de tratamento – correspondeu a 61.2% dos antibióticos prescritos às crianças na Eslovênia, e a apenas 7.8% das prescrições na China. Antibióticos do Grupo 2 representaram 77.3% das prescrições no Irã, e apenas 23% das prescrições na Finlândia. Em neonatos, os antibióticos do Grupo 1 foram usados em 100% dos casos de infecção em Singapura, e em meros 24.4% dos casos na China.

No geral, o estudo indicou que o uso de antibióticos do Grupo 3 é bastante restrito em praticamente todos os países analisados (veja na figura acima o baixo percentual representado pelas barras em vermelho). O México aparece com um destaque negativo neste aspecto. 20.7% das prescrições no país foram de antibióticos do Grupo 3. Rússia e México foram os locais em que tais medicamentos foram mais prescritos para neonatos, com 13.9% e 12.8% das indicações, respectivamente.

 

TABELA 1. Indicações clínicas mais frequentes para prescrição de antibióticos em crianças e recém-nascidos, de acordo com o estudo

 

 

O QUE EXPLICA AS VARIAÇÕES NAS PRESCRIÇÕES DE ANTIBIÓTICOS

As diferenças encontradas pelo estudo atual são enormes entre os países, tanto no uso de antibióticos quanto na maneira como infecções comuns – como sepse neonatal e infecções torácicas – são tratadas.

 

 

Segundo os autores, alguns motivos ajudam a explicar a ampla variação de administração observada, como:

  • Qualidade dos serviços de saúde local e de seus funcionários;
  • Preço dos medicamentos no país;
  • Disponibilidade dos antibióticos no país;
  • Prevalência de infecções causadas por bactérias de alta resistência.

Ainda assim, os autores acreditam que as más práticas de prescrição de antibióticos podem explicar boa parte das discrepâncias encontradas em relação ao índice AWaRe da OMS.

Os antibióticos mais utilizados em cada região do mundo
(no tratamento de infecções em crianças)

  • África, Europa Mediterrâneo Oriental, Sudeste Asiático: Ceftriaxona
  • Continente americano: Sulfametoxazol-trimetoprima (Cotrimoxazol)
  • Pacífico Ocidental: Azitromicina

Em comunicado à imprensa comentando o estudo, o dr. Mike Sharland, professor de Doenças Infecciosas Pediátricas na Universidade de Londres e um dos autores do estudo GARPEC, usado como base para o trabalho atual, afirmou: “Apesar de existirem diversas razões que explicam tais variações, de um ponto de vista clínico não há justificativa para o uso de de uma variedade tão grande de antibióticos de largo espectro – inclusive antibióticos do Grupo 2, como a azitromicina – para tratar pneumonia em crianças pequenas, por exemplo”.

Os autores apontam que o índice AWaRe, com sua organização de medicamentos em grupos simples, poderá ser utilizado daqui em diante como um parâmetro eficiente acerca do uso de antibióticos na prática médica, assim como orientar programas nacionais e internacionais de conscientização e de adequação de prescrição. A meta, tanto do AWaRe quanto dos pesquisadores, é lutar contra o aumento da resistência bacteriana frente aos antibióticos atuais – especialmente nas crianças, a faixa etária que mais consome tais medicamentos em todo o mundo.

 

O BRASIL NO ESTUDO

O Brasil contribui no estudo com dados de 1.173 prescrições, vindas de 08 hospitais.

Do total de prescrições de antibióticos para crianças, cerca de 38% foram de medicamentos do Grupo 1 (número praticamente idêntico ao da Alemanha, porém ainda longe dos 60% recomendados pela OMS), 42% do Grupo 2, 8% do Grupo 3 e 12% de antibióticos não classificados no AWaRe.

 

 

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. WHOExecutive summary: the selection and use of essential medicines. Report of the 21st WHO Expert Committee on the Selection and Use of Essential Medicines.
    • https://www.who.int/medicines/publications/essentialmedicines/EML_2017_ExecutiveSummary.pdf
  2. Yingfen Hsia, Brian R Lee, Ann Versporten, Yonghong Yang, Julia Bielicki, Charlotte Jackson et al. Use of the WHO Access, Watch, and Reserve classification to define patterns of hospital antibiotic use (AWaRe): an analysis of paediatric survey data from 56 countries. The Lancet Global Health, Volume 7, ISSUE 7, Pe861-e871, July 01, 2019.
    • https://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(19)30071-3/fulltext

 

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