InfectologiaOncologiaOtorrinolaringologiaPediatria GeralPuericulturaUrgência & Emergência

Linfadenopatias em Crianças – Principais Causas

Compartilhe conhecimento:

Quais são as patologias mais comuns que causam as linfadenopatias? E como diagnosticá-las corretamente? Discutimos estes e outros assuntos neste post especial.

Linfadenopatias periféricas são bastante comuns na faixa etária pediátrica, de maneira que, nos pacientes menores, chega a ser raro o exame físico em que não palpamos linfonodos aumentados.

Na grande maioria dos casos, ela não tem relevância clínica e é autolimitada, não havendo necessidade de investigação inicialmente. Entretanto, podem ser a apresentação inicial de doenças mais graves. O desafio que encontramos é: quando iniciar a investigação dos casos de linfadenopatia, evitando condutas mais agressivas e a indicação de biópsias desnecessárias?

Quando iniciar a investigação dos casos de linfadenopatia, evitando condutas mais agressivas e a indicação de biópsias desnecessárias?

Neste post, discorreremos brevemente sobre a fisiopatologia das linfadenopatias e abordaremos as patologias mais comuns que as causam. O exame físico e as características mais preocupantes que nos orientam a encaminhar o paciente para uma investigação mais detalhada serão assunto a ser abordado num próximo momento.

 

LINFADENOPATIAS – TERMOS E ANATOMIA

Linfadenopatia, também conhecida como adenomegalia, linfadenomegalia, linfadenite e, mais popularmente, íngua ou bubão, é o termo que define o aumento dos linfonodos.

Tais linfonodos, compostos por tecidos de defesa, organizam-se em cadeias em diversas regiões do nosso organismo, tanto superficiais quanto profundas. Os que são palpáveis durante o exame físico, ditos superficiais, estão representados nas figuras abaixo:

O sistema linfático inclui linfócitos circulantes, vasos linfáticos, linfonodos, baço, amígdalas, adenoides, placas de Peyer e timo. A linfa, um ultrafiltrado do sangue, é coletada pelos capilares linfáticos que estão presentes em todos os órgãos, exceto cérebro e coração. Eles se juntam para formar vasos progressivamente maiores e drenam regiões do corpo. Durante o seu curso, os vasos linfáticos carreiam a linfa para os linfonodos, onde ela é filtrada através dos sinusais. Neles, os materiais particulados ou os microrganismos circulantes são fagocitados, processados e apresentados como antígenos aos linfócitos ao redor. Isso resulta na estimulação da produção de anticorpos, respostas T celulares e secreção de citocinas. [CAMITTA BM. O Sistema Linfático: Anatomia e Função do Sistema Linfático. In: NELSON. Tratado de Pediatria. 17ª edição. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. p. 1781]

Dizemos que a linfadenopatia é localizada quando está presente em apenas uma região, sendo considerada generalizada quando acomete duas ou mais regiões não contíguas.

 

CAUSAS DAS LINFADENOPATIAS

As etiologias mais comuns em pediatria, bem como o resumo dos achados em relação a elas, estão listadas abaixo. Em sua maioria, foram baseadas na excelente revisão do site UpToDate (acesso em março/2017), modificadas conforme necessário para nossa realidade ou conforme literatura referenciada.

 

Infecciosas

Virais

  • Epstein barr – Faringotonsilite, esplenomegalia, febre, mal estar, fadiga, exantema [1]
  • Citomegalovírus – Febre, mal estar, fadiga, odinofagia, hepatoesplenomegalia eventual [2]
  • Herpes simples – Vesículas agrupadas, gengivoestomatite
  • Varicela zoster (catapora) – Exantema vesicular generalizado que rapidamente evolui para pústulas e crostas; atenção para história vacinal
  • Adenovírus – Sintomas respiratórios, faringite, conjuntivite, eventualmente diarreia
  • Rubéola – Febre e exantema; pode ser assintomática; atenção para história vacinal
  • Hepatite B – Febre, fadiga, inapetência, dor abdominal, náusea/vômitos,  colúria, icterícia; pode ser assintomática; atenção a comportamento sexual de alto risco, exposição a material contaminado por sangue ou antecedente materno de hepatite B (pode ser transmitida no momento do parto), além da história vacinal
  • Sarampo – Exantema maculopapular com progressão craniocaudal, tosse, coriza e conjuntivite; atenção para história vacinal
  • Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) – Infecções bacterianas recorrentes, febre, diarreia, encefalopatia, baixo ganho ponderal, hepatoesplenomegalia

Fúngicas

  • Paracoccidioidomicose – Febre, anemia, emagrecimento, hepatosplenomegalia (fase aguda); fraqueza, tosse, febre e dispneia (fase crônica); viagem ou residência em áreas endêmicas (meio rural, especialmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil) [3]
  • Histoplasmose – Pneumonia, febre, astenia; viagem ou residência em áreas endêmicas (ocorre em todo o Brasil) [4]

Bacterianas

  • Streptococcus ß-hemolítico do grupo A – Exantema seguido de descamação
  • Brucelose – Febre, sudorese, mal estar, fadiga, perda de peso, ingestão de leite não pasteurizado; exposição a gado (bovino, ovino ou caprino)
  • Tularemia – Febre, calafrios, cefaleia; ingestão de carnes mal cozidas, exposição a coelhos, roedores, mutucas ou mosquitos. É incomum no Brasil, mas registrada na América do Norte e em partes da Ásia e da Europa [5]
  • Leptospirose – Febre, rigidez, mialgia, cefaleia, injeção conjuntival, exantema, hepatoesplenomegalia
  • Doença da arranhadura do gato (Bartonella henselae) – Febre baixa, pápula ou pústula no sítio de inoculação (arranhadura do gato), aumento dos linfonodos no sítio de drenagem da lesão

Espiroquetas

  • Sífilis – Exantema, febre, mal estar, anorexia, perda de peso, hepatomegalia
  • Doença de Lyme (borrelisose brasileira) – Eritema, inicialmente ao redor da picada do carrapato, que depois se espalha por todo o corpo; febre, cefaleia, mialgia, mal estar, artralgia [6]

Parasitárias

  • Toxoplasmose – A maioria das infecções em indivíduos imunocompetentes é assintomática; mialgia, fadiga, febre, esplenomegalia e exantema maculopapular podem estar presentes; exposição a gatos
  • Leishmaniose – Lesões cutâneas, esplenomegalia, febre, caquexia; exposição ao “mosquito-palha” (no Brasil, ocorre principalmente nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, no Sudeste – em especial em Minas Gerais, e no Pará; é rara nos estados do Sul e nos demais estados da região Norte)
  • Malária – Febre; viagem ou residência em áreas endêmicas (no Brasil, ocorre nos estados da região Norte, no mato Grosso, em Tocantins e no Maranhão)

modelo 3d dos vasos linfáticos

 

Não Infecciosas

Neoplásicas

Primárias

  • Linfoma de Hodgkin – Geralmente se manifesta com linfadenopatia cervical; a adenomegalia pode ser unilateral; pode ocorrer desconforto respiratório
  • Linfoma Não Hodgkin – Linfadenopatia difusa de crescimento rápido, dor abdominal, vômitos; a adenomegalia geralmente é bilateral; pode ocorrer desconforto respiratório

Metastáticas

  • Leucemia mielógena ou linfocítica aguda – Prostração, sangramento, hepatoesplenomegalia, anemia, trombocitose; linfonodos occipitais frequentemente são palpáveis
  • Neuroblastoma – Massa abdominal; síndrome opsoclônus-mioclônus, proptose, olhos fundos e equimose periorbitária, obstrução nasal, síndrome de Horner, nódulos subcutâneos, diarreia secretora
  • Rabdomiossarcoma – Proptose; congestão nasal, sinusal ou auricular; síndrome de Horner; hematúria; obstrução urinária; constipação

Imunológicas

  • Vasculites (lúpus eritematoso sistêmico, artrite idiopática juvenil) – Os pacientes podem apresentar linfadenopatia generalizada durante a fase aguda da doença
  • Doença do soro – Exantema, esplenomegalia, mialgia, artrite
  • Anemia hemolítica autoimune – Linfadenopatia coincide com hemólise
  • Doença granulomatosa crônica – Infecções recorrentes, abscessos cutâneos, adenite supurativa

Metabólicas (Doenças de Depósito)

  • Doença de Gaucher – Hepatoesplenomegalia, anemia, trombocitopenia, osteopenia
  • Doença de Niemann-Pick – Hepatoesplenomegalia, perda da função neurológica

Drogas

  • Fenitoína, fenobarbital, carbamazepina, isoniazida, aspirina, barbitúricos, penicilina, tetraciclina, iodados, sulfonamidas, alopurinol e fenilbutasona – Exantema maculopapular grave, febre, hepatoesplenomegalia, icterícia, anemia, leucopenia e plasmocitose ocorrendo ou após a linfadenopatia

Miscelânea

  • Sarcoidose – Doença granulomatosa sistêmica, adenomegalia generalizada, principalmente com acometimento cervical
  • Linfo-histiocitose hemofagocítica – Febre, hepatoesplenomegalia, sintomas neurológicos, exantema
  • Doença de Castleman – Febre, hepatoesplenomegalia, hipergamaglobulinemia policlonal
  • Histiocitose de células de Langerhans – Exantema (pápulas amarronzadas a violáceas), lesões de mucosas, lesões líticas dos ossos, proptose, diabetes insipidus
  • Doença de Kawasaki – Além de linfadenopatia cervical, manifesta-se com febre, exantema, conjuntivite não purulenta, enantema oral, edema das mãos e dos pés.
  • Doença de Kikuchi-Fujimoto – Adenopatia cervical e supraclavicular, febre, fadiga, perda de peso, anemia e leucopenia
  • Doença de Rosai-Dorfman (histiocitose sinusal com linfadenopatia massiva) – Adenomegalia cervical crônica bilateral é característica; outros grupos modais estão envolvidos na maioria dos casos; febre, anemia, leucocitose, VHS elevado e hipergamaglobulinemia
  • Hipertiroidismo – Taquicardia, hipertensão, diaforese, perda de peso, bócio e hiperreflexia
  • Acrodermatite papular (síndrome de Gianotti-Crosti) – Exantema na face, nádegas, membros, palmas das mãos e plantas dos pés; hepatomegalia
  • Transformação progressiva dos centros terminativos – Encontrada em 10% dos linfonodos com hiperplasia reativa; algumas vezes associados com diagnostico prévio de linfoma de Hodgkin e raramente antes do diagnóstico de linfoma de Hodgkin
  • Pós-vacinação – História de imunização recente (principalmente DPT e poliomielite)

A avaliação e manejo das linfadenopatias generalizadas e localizadas serão assunto do nosso post na próxima semana.

Print Friendly, PDF & Email
Etiquetas
Mostrar mais

Dr. Antonio Aurelio Euzebio Jr

Médico pediatra especializado em medicina intensiva pediátrica, com graduação e especialização pela Unicamp.

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo