Pediatria Geral

Úlceras de Lipschütz: o que são, como diagnosticar e tratar

As úlceras de Lipschutz são úlceras vulvares não sexualmente transmissíveis e que podem ser encontradas em meninas pré-púberes sem vida sexual ativa. Aprenda como identificá-las e tratá-las.

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Não é infrequente o atendimento de meninas pré-púberes, sem vida sexual ativa, que procuram atendimento médico com dor genital e a presença de úlceras vulvares. Meninas sem vida sexual ativa podem apresentar úlceras vulvares não relacionadas a doenças sexualmente transmissíveis e uma das possíveis causas é a úlcera de Lipschütz.

É claro que é fundamental analisar possíveis históricos de abuso sexual e realizar exame genital, a fim de descartar outras hipóteses. Todavia, ainda há grande desconhecimento sobre causas não relacionadas à vida sexual para úlceras genitais e tais possibilidades devem ser aventadas. Confira, a seguir, nosso resumo sobre o tema.

 

O que é a úlcera de Lipschütz?

A úlcera de Lipschütz é uma condição incomum, provavelmente por ser subdiagnosticada. É uma doença autolimitada, não transmitida sexualmente, caracterizada pelo rápido início, com ulcerações dolorosas e necróticas na vulva ou vagina inferior [2]. Acomete mais meninas entre 10-15 anos sem vida sexual ativa [1]. Na maioria dos casos, a etiologia não pode ser determinada, mas já há relatos na literatura médica de associação a infecções virais ou bacterianas [2,3,5].

A ulceração genital aguda em meninas leva a grande angústia por parte dos médicos e familiares, pois logo se levanta a hipótese de abuso. Várias doenças sistêmicas, o uso de medicações, trauma e a úlcera de Lipschütz também não devem ser esquecidos como diagnósticos diferenciais [1,2,3,4]. Esses diagnósticos devem ser pensados, principalmente, nas meninas pré-púberes e sem história de relação sexual.

 

Sinonímia

  • Úlceras de Lipschutz
  • Úlceras virginais,
  • Ulcus vulvae acutum,
  • Úlceras aftosas [1,4,5].

 

Epidemiologia

Devido à subnotificação dos casos, a real incidência da doença é desconhecida. Em algumas séries de casos, a idade média de início foi de 12 a 29 anos; todavia, há relatos de casos de ulcerações genitais agudas em mulheres adultas e crianças pequenas [2].

 

Etiologia da Úlcera de Lipschütz

Em grande parte dos casos, não são encontrados agentes específicos responsáveis pela doença [2,3,5]. Quando uma etiologia é definida, o principal agente causador é o vírus Epstein-Barr (VEB), que atinge a mucosa genital através da disseminação hematogênica ou através de autoinoculação com saliva, urina ou líquido cervicovaginal [2].

Saiba mais

Outros vírus e bactérias também já foram descritos como responsáveis pelo aparecimento da doença. Entre eles, destacam-se:

Há relatos de úlceras genitais como primeira manifestação de leucemia mieloide aguda e de manifestação da síndrome de Sjögren [2].

 

Fisiopatologia

O mecanismo exato de formação da ulceração genital aguda não é claro. Uma hipótese seria que uma reação de hipersensibilidade à uma infecção viral ou bacteriana, com deposição de complexos imunes nos vasos dérmicos, ativação do sistema complemento, microtrombose e subsequente necrose tecidual seria o mecanismo responsável pela formação das úlceras [2].

 

Manifestações Clínicas da Úlcera de Lipschütz

A úlcera de Lipschütz é caracterizada pela presença de uma ou múltiplas úlceras agudas dolorosas, geralmente maiores que 1 cm, profundas, com borda vermelho-violácea e base necrótica coberta com um exsudado acinzentado ou uma escara aderente, de coloração cinza-preta. Acomete meninas adolescentes ou mulheres jovens não sexualmente ativas [1,2,5].

Normalmente, as úlceras ocorrem nos pequenos lábios, mas também são encontradas nos grandes lábios, períneo e na parte inferior da vagina [5]. As úlceras “beijando” ou “em espelho” encontradas nas superfícies opostas são comuns [2,5].

Pode haver grandes variações na aparência da lesão:

  • com quadro inicial de pseudovesículas vermelhas ou pretas, evoluindo para formação de uma escara com úlcera dolorosa subjacente e resolução com formação de uma pequena área de tecido granulomatoso;
  • múltiplas úlceras em uma distribuição “herpetiforme”;
  • uma ou mais úlceras com escara [5].

Frequentemente ocorre edema labial e linfadenopatia inguinal [2]. Sintomas sistêmicos podem estar associados, e são semelhantes à influenza ou mononucleose, como: fadiga, mal-estar, febre, odinofagia, mialgia e cefaleia [1,2,5].

Dor intensa e disúria são queixas universais de jovens acometidas pela úlcera de Lipschütz

 

Alguns pacientes têm histórico de aftose oral e/ou lesões orais, concomitantes ao momento da apresentação das úlceras vaginais [2].

A doença é autolimitada, com resolução espontânea em 2 – 6 semanas, mas pode haver recorrência [1,2,5].

 

Diagnóstico da Úlcera de Lipschütz

O diagnóstico da Úlcera de Lipschütz é baseado em história detalhada da paciente e no exame físico completo. Podem ser necessárias investigações laboratoriais para excluir outras causas de ulceração genital, incluindo:

  • doenças sexualmente transmissíveis,
  • doença de Behçet,
  • doença inflamatória intestinal e
  • doenças bolhosas autoimunes.

História e exame físico completos, além de exames complementares, visam, principalmente, à exclusão de outras doenças.

Evidências de infecção aguda primária pelo vírus Epstein-Barr apoiam o diagnóstico de úlcera genital aguda.

 

Diagnóstico Clínico

Deve-se realizar histórico médico completo e exame físico. A revisão dos sistemas deve incluir informações sobre doenças sistêmicas, com especial atenção aos sintomas oculares, neurológicos, gastrointestinais e geniturinários [2,5].

Realizar história sexual cuidadosa, incluindo perguntas sobre atividade sexual e possíveis abusos sexuais [2,5].

Exame físico completo deve incluir pele, mucosa genital, oral e ocular, além dos linfonodos, para excluir ulcerações genitais secundárias a outras doenças. A presença de hepatoesplenomegalia também deve ser conferida [2,5].

O UpToDate propõe critérios para o diagnóstico clínico de ulceração genital aguda em adolescente ou mulher jovem com histórico recente de uma doença do tipo influenza ou mononucleose [2]:

    • Primeiro episódio de ulceração genital aguda;
    • Idade < 20 anos;
    • Presença de uma ou várias úlceras profundas, bem delimitadas e dolorosas, com base necrótica nos pequenos ou grandes lábios;
    • Padrão bilateral de “beijo”;
    • Ausência de histórico sexual ou ausência de contato sexual nos três meses anteriores;
    • Ausência de imunodeficiência;
    • Curso agudo, com início abrupto e cicatrização dentro de 6 semanas.

 

Diagnóstico Laboratorial

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Dr. Breno Nery

Médico pediatra especializado em medicina intensiva pediátrica, com graduação pela Universidade Federal de Pernambuco e especialização pela Unicamp.
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