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Larva Migrans Cutânea (Bicho Geográfico): epidemiologia, diagnóstico e tratamentos

Atualizações sobre a larva migrans cutânea, infecção humana cutânea pelas larvas de ancilostomídeos e muito comum em países tropicais.

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A infecção humana cutânea pelas larvas de ancilostomídeo provenientes das fezes do cão ou gato ocasiona a larva migrans cutânea. A doença ocorre com frequência em países tropicais e é bastante prevalente na América do Sul. As crianças podem adquirir a doença mais frequentemente, pois têm contato da pele com solos contaminados nas brincadeiras em caixas de areia, areia de praia e até mesmo na residência.

Leia a seguir nossa revisão e atualize-se sobre o tema.

 

Aspectos Gerais da Larva Migrans Cutânea

A larva migrans cutânea (LMC) ocorre por infecção do homem pelas larvas dos ancilóstomos depositadas nas fezes de cães e gatos. Mais frequentemente, o Ancylostoma braziliense ou Ancylostoma caninum são os responsáveis pela infecção, que também pode ser causada por outras larvas de parasitas que não são parasitas humanos naturais [1].

A larva migrans cutânea é causada pela penetração cutânea acidental do nematoide, com subsequente migração de suas larvas pela epiderme, ocasionando erupção cutânea eritematosa, serpiginosa e pruriginosa [2,3].

 

Epidemiologia do bicho geográfico

PortalPed - dados epidemiologicos ancilostomiase no mundo
Mapa da distribuição global de ancilostomíase. Extraído de atualização global da OMS por de Silva et al. (2003 – veja nas referências ao final do texto), que incluiu 494 publicações a partir de 1990 e incorporou dados de 112 países. Adaptado de Brooker et al., 2004.

 

Os ancilóstomos são encontrados em regiões tropicais e subtropicais (sudeste da Ásia, África, América do Sul, Caribe e partes do sudeste dos Estados Unidos), onde o parasita é mais adaptado às condições ambientais, de clima mais quente [1,4]. A LMC é frequentemente relacionada ao retorno de viajantes de regiões tropicais, onde tiveram exposição ao solo e/ou areia em que provavelmente cães e gatos portadores de ancilóstomos tiveram acesso. Em pesquisa realizada em população rural no Brasil, a prevalência da LMC durante a estação chuvosa foi de 14,9% entre crianças menores de 5 anos e de 0,7% entre os maiores de 20 anos [4].

As larvas são encontradas em praias de areia, caixas de areia e residências. Indivíduos em maior risco incluem:

  • viajantes,
  • crianças,
  • nadadores e
  • trabalhadores cujas atividades colocam a pele em contato com o solo contaminado [1].

Não há predileção por raça ou sexo. A larva migrans cutânea pode acometer todas as idades, mas tende a ser observada mais frequentemente em crianças, devido à maior exposição a solos contaminados, hábito de andarem descalças e pelo constante manuseio de areia [2].

 

Etiologia da Larva Migrans Cutânea

http://www.ufrgs.br/para-site/siteantigo/Imagensatlas/Animalia/Ancylostoma%20caninum.htm

A larva migrans cutânea tem sido associada a Ancylostoma caninum, A. braziliense e Uncinaria stenocephala, que são todos ancilóstomos de cães e gatos. Bunostomum phlebotomum, um ancilóstomo de gado, também é capaz de causar LMC de ciclo curto em humanos [4].

Etiologias raras incluem: Ancylostoma ceylonicum, Ancylostoma tubaeforme, Necator americanus (ancilostomíase humana), Strongyloides papillosus (parasita de ovelhas, cabras e gado), Strongyloides westeri (parasita de cavalos), Ancylostoma duodenale, Pelodera (Rhabditisstrongyloides, Gnathostorna spinigerum, Strongyloides stercoralis, Bunostornum phlebotomum, Strongyloides myopotami e Strongyloides procy onis [2].

 

Fisiopatologia

Os ancilostomídeos maduros se reproduzem no intestino delgado do hospedeiro animal definitivo (cão e gato), onde os ovos são depositados. Os ovos atingem o solo junto com as fezes do hospedeiro definitivo. Sob condições favoráveis​​ (umidade, calor, sombra), as larvas rabditoides eclodem em 1 a 2 dias. Após 5 a 10 dias (2 mudas), elas originam larvas filarioides (terceiro estágio), que são infectantes e podem sobreviver de 3 a 4 semanas em condições ambientais favoráveis [1].

Em contato com o hospedeiro animal não humano, as larvas filarioides penetram na pele e são transportadas pelos vasos sanguíneos para os pulmões, onde penetram nos alvéolos pulmonares, sobem na árvore brônquica até a faringe e são engolidas. As larvas atingem o intestino delgado, onde residem e amadurecem até a forma adulta, e se ligam à parede intestinal [1,4].

https://www.cdc.gov/parasites/zoonotichookworm/biology.html

Os seres humanos podem ser infectados quando larvas filarioides presentes no solo penetram parcialmente na pele. As larvas da maioria das espécies não podem amadurecer no hospedeiro humano (que são, lembremos, hospedeiros intermediários acidentais), pois não possuem colagenase, o que impede que as larvas ultrapassem a membrana basal da pele. As larvas produzem uma reação inflamatória ao longo do trato cutâneo durante sua migração, que pode continuar por semanas [1,4].

Algumas larvas podem acessar tecidos mais profundos. Raramente, o envolvimento pulmonar ocorre, seja por invasão direta ou secundária a uma reação imunológica sistêmica [1].

 

Quadro Clinico da Larva Migrans Cutânea

As lesões causadas pela larva migrans cutânea geralmente ocorrem nas porções distais dos membros inferiores, incluindo o dorso dos pés e os espaços interdigitais dos dedos dos pés, mas também podem ocorrer em qualquer local exposto ao parasita como: região anogenital, nádegas, mãos, joelhos e couro cabeludo [2].

Há relatos de lesões que se desenvolveram de semanas até meses após a exposição.

Inicialmente, no local da penetração da cada larva aparece uma pápula eritematosa pruriginosa que, muitas vezes, pode passar desapercebida pelo paciente [1]. Pode ocorrer formigamento no local da penetração já dentro de 30 minutos após a penetração das larvas; o prurido pode surgir após 1 hora [2,3]. Em locais altamente contaminados, até várias centenas de pápulas pruriginosas podem se desenvolver. Após dois a seis dias, surgem “trilhas” marrom-avermelhadas, intensamente pruriginosas, elevadas e serpiginosas, como resultado da migração larvária, e que podem crescer de vários milímetros até alguns centímetros por dia [1]. As lesões têm aproximadamente 3 mm de largura e podem ter comprimento de 15 a 20 mm. A larva geralmente está localizada 1 a 2 cm à frente da erupção [1]. Geralmente, de uma a três lesões estão presentes. Em 10% dos casos, podem ocorrer lesões vesiculobolhosas ou nodulares, o que pode atrasar o diagnóstico [1,3]. As lesões podem se tornar vesiculadas, incrustadas ou infectadas secundariamente.

As lesões desaparecem espontaneamente, geralmente em 2–8 semanas, mesmo na ausência de terapia específica [1].

A foliculite por ancilostomíase é uma manifestação incomum, representando menos de 5% dos casos e consistindo em numerosas pápulas e pústulas foliculares, eritematosas e pruriginosas. Os trilhos serpiginosos podem estar ausentes ou relativamente curtos [1,3].

HÁ RELAÇÃO ENTRE LMC E TOSSE SECA?

Muito raramente pode ocorrer disseminação hematogênica de larvas para os pulmões, levando um quadro de tosse seca, que começa cerca de 1 semana após a penetração cutânea e dura de 1–2 semanas [1].

 

Diagnóstico

A larva migrans cutânea é diagnosticada pela história e exame físico [1,2,3]. Geralmente, há história de exposição ao solo ou à areia contaminados e também presença da lesão serpiginosa muito pruriginosa na pele [1]. Alguns pacientes apresentam eosinofilia e aumento dos níveis de imunoglobulina E (IgE) [2].

A dermatoscopia pode ser utilizada. Podem ser encontradas áreas sem estrutura, translúcidas e marrons, que são correspondentes aos corpos larvares, além de vasos pontilhados em vermelho, que correspondem a uma toca vazia [1].

A ultrassonografia pode demonstrar estruturas subepidérmicas e intrafoliculares pequenas, lineares, hiperecogênicas e hiper-refringentes, sugestivas de fragmentos de larvas. Achados adicionais podem incluir túneis hipoecogênicos dérmicos e hipodérmicos com inflamação, refletindo a dilatação do ducto linfático [1].

 

Diagnóstico Diferencial

Entre as doenças que devem fazer parte do diagnóstico diferencial destacam-se:

 

Tratamento para LMC

As opções de tratamento para larva migrans cutânea incluem ivermectina ou albendazol oral [1,2,3].

O tratamento de escolha é a ivermectina (liberada para crianças ≥15 kg, na dose 200 mcg/kg 1 vez ao dia, máximo de 12 mg/dose, por via oral, por 1–2 dias) [1,2, 5]. Uma dose única de ivermectina resulta em taxas de cura de 94 a 100% [1] .

Outra opção terapêutica é o albendazol. Para lactentes ≥8 meses e crianças com peso ≤10 kg, dados muito limitados são disponíveis, mas as recomendações são de 200 mg por via oral 1 vez ao dia, por 3 dias. Para crianças com peso >10 kg e adolescentes, os dados disponíveis também são limitados, mas as recomendações são de 400 mg por via oral 1 vez ao dia, administrado juntamente com refeição gordurosa, por 3 dias. É um tratamento alternativo aceitável [1,2]. A bula do albendazol no Brasil preconiza seu uso somente nos maiores de 2 anos [7]. Para pacientes com lesões extensas ou múltiplas, um curso de sete dias de albendazol pode ser administrado [1].

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Dr. Breno Nery

Médico pediatra especializado em medicina intensiva pediátrica, com graduação pela Universidade Federal de Pernambuco e especialização pela Unicamp.
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