Odontopediatria

Prevenção de cáries e alimentação saudável: qual a relação?

Relembramos a cárie dental e discutimos a relação entre o estilo de alimentação e esta "famosa" doença bucal

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Neste material, analisaremos como os hábitos alimentares — desde aqueles adquiridos na primeira infância até os oriundos das atribulações da vida adulta moderna — influenciam na saúde bucal. Antes de falarmos sobre essa relação, todavia, é muito importante compreendermos o processo da cárie dental, visto que ela é uma das doenças bucais mais prevalentes.

 

A CÁRIE DENTAL

O que é, quais são os fatores predisponentes e sua natureza multifatorial

A cárie dentária é conceituada como uma doença de caráter multifatorial, crônica, de progressão lenta, iniciada por alterações no biofilme dental. Essas alterações levam a flutuações de pH e, quando há uma queda do pH da interface abaixo de 5,5, ocorre desmineralização dos cristais de hidroxiapatita. No processo inverso, ou seja, quando há aumento no pH da interface, ocorre ganho de mineral para o dente (remineralização).1

O processo de desmineralização do esmalte dental é provocado pela ação de ácidos, que são produtos da fermentação de bactérias. O contato desses ácidos com o esmalte do dente (hidroxiapatita) provoca um desequilíbrio entre desmineralização e remineralização dos dentes (des-re) e, desta forma, favorece o desenvolvimento da cárie.

Ressalta-se que o estabelecimento da cárie é dependente de:

  • pH bucal menor do que 5,5;
  • fatores do hospedeiro que possibilitem maior formação e retenção de placa bacteriana;
  • fatores salivares;
  • fatores microbiológicos e
  • dieta do paciente.1

Em 1962, Keyes desenvolveu um diagrama que demonstrou a natureza multifatorial da cárie. Neste diagrama, observa-se que pelo menos três fatores etiológicos são essencialmente necessários para que a doença cárie se desenvolva, os quais o autor caracteriza como fatores etiológicos primários e são:

  1. hospedeiro susceptível (com dentes);
  2. microbiota cariogênica da placa dental;
  3. substratos da dieta, os quais são metabolizados pelos microrganismos da placa.2
Diagrama de Keyes

 

Como, para Newbrum, a cárie é resultado de um processo crônico, que aparece após algum tempo da presença e da interação desses três fatores, julgou-se conveniente incluir o tempo como outro fator etiológico.3

 

A cárie é conceituada como uma doença transmissível, mas é importante deixar claro que a doença não é transmitida, mas sim os fatores predisponentes, como as bactérias causadoras da cárie.

caries dentarias - diagrama de newbrum
Diagrama de Newbrum

 

MICROORGANISMOS CAUSADORES DAS CÁRIES

Conhecendo os S. mutans

A certeza da participação de microorganismos no desenvolvimento da cárie já vem sendo descrita há mais de dois séculos. Existem, portanto, microorganismos específicos relacionados à cárie, fazendo com que a placa bacteriana de natureza cariogênica seja constituída de uma microbiota anaeróbica, Gram positiva, sacarolítica e representada basicamente pelos Streptococcus mutans. Na verdade, os S. mutans constituem um grupo heterogêneo de microorganismos, atualmente denominado estreptococos do grupo mutans.10

Os S. mutans são microorganismos altamente cariogênicos e a sua aquisição se faz presente nas fases precoces da vida, logo após a erupção dos dentes. Os S. mutans são os microorganismos mais relacionados com a cárie dental em humanos, por possuírem as seguintes características:

  • capacidade de colonizar os dentes;
  • capacidade de produzir polissacarídeos intra e extracelulares;
  • por serem altamente acidogênicos e acidúricos e
  • por metabolizarem várias glicoproteínas salivares.10

Vários estudos mostraram, por distintos meios, serem as mães as principais fontes de infecção/transmissão para os seus filhos.4,5,6,7,8

Alguns autores denominaram o período que vai dos 19 aos 31 meses de idade, com média de 26 meses, de a “janela de infectividade da cárie dentária” na dentição decídua, procurando relacionar com o fato das mães desfrutarem de frequentes e íntimos contatos com seus filhos nesse período.8

Berkowitz (1981) e colegas encontraram associação significativa entre os níveis salivares de S. mutans da mãe e o risco de infecção por estes microrganismos em seus filhos. Mães com altas concentrações salivares de S. mutans (105 UFC — unidades formadoras de colônia) têm maior chance de infectar seus filhos do que as mães com baixos níveis salivares, especialmente no período de tempo de “janela de infectividade”.8,9

Não queremos dizer com isso que a transmissão desses microorganismos também não se dê de forma indireta, ou seja, por meio de alimentos ou objetos contaminados. Os S. mutans podem sobreviver de maneira viável nos objetos expostos ao meio ambiente por 7 horas, sendo, portanto, ainda passíveis de transmissão.11

Também, em outro estudo, demonstrou-se que as escovas dentais podem apresentar-se altamente contaminadas pelos S. mutans após o seu uso e assim permanecer por algum tempo, podendo servir de meio de transmissão interindividual da doença.12

 

A SAÚDE BUCAL E A DIETA

Cariogenicidade dos alimentos naturais e dos processados

Sabe-se que o homem primitivo, por meio do consumo de alimentos naturais, desencadeava um processo de des-re (perda e ganho mineral) em situação de equilíbrio que não permitia o aparecimento da “doença” cárie. Esses alimentos naturais, apesar de fornecerem uma fonte de carboidratos fermentáveis, também possuem substâncias com ação antimetabólica, o que reduz esse efeito, além de conterem elementos que potencializam a remineralização, com ação anticariogênica. Além desse equilíbrio químico, os alimentos naturais têm uma ação mecânica durante a mastigação, realizando, naturalmente, um controle de placa e, por essas propriedades, eles não são considerados cariogênicos. A manipulação dos alimentos naturais pelo ser humano fez com que muitas dessas propriedades ficassem prejudicadas, produzindo um desequilíbrio da biodiversidade da cavidade bucal, tornando-os cariogênicos.13

A cariogenicidade da dieta é determinada pela presença de carboidratos, principalmente a sacarose, que servem de substrato para que os microrganismos da cavidade bucal sintetizem polissacarídeos extracelulares — os quais possuem um importante papel na formação da placa — e, também, produzam ácidos orgânicos, que promovem a desmineralização do esmalte e podem desencadear o processo de cárie.13

O aumento no padrão de vida também alterou os padrões alimentares. Uma vida mais turbulenta trouxe ao homem moderno um consumo maior de alimentos de lanchonete, refrigerantes, uma diversidades de chocolates, entre outros, dieta essa que corrobora com o aumento no índice de lesões.14

Veja também

O leite materno provoca cáries nos bebês?

Tem sido observado em alguns países que a incidência de cárie esteve diretamente relacionada à quantidade de açúcar disponível no mercado. Isso foi observado pelo incremento no consumo de açúcar dos últimos 30 anos. Calcula-se que cada 25 g de açúcar consumido por dia equivalem a um dente que pode se tornar cariado, restaurado e extraído. Além disso, sabe se que a consistência dos carboidratos, assim como a frequência em que são ingeridos, tem uma grande influência no aparecimento das lesões de cárie.15 Os alimentos cariogênicos na forma sólida ficam retidos nas superfícies dos dentes por tempo prolongado e, dessa forma, propiciam extensos períodos de produção de ácidos bacterianos, com consequente saída de minerais das estruturas dentárias.16

Por isso, a introdução de uma alimentação saudável deve ser o mais breve possível, já começando com o desmame e a introdução gradativa de alimentos saudáveis, evitando a introdução precoce da mamadeira e, principalmente, de líquidos açucarados.15

 

O QUE É UMA DIETA SAUDÁVEL PARA O CORPO E PARA A DENTIÇÃO?

Os 10 passos para uma alimentação saudável para crianças

A nutrição e a dieta são relevantes no desenvolvimento dentário e na erupção e manutenção do dente íntegro, podendo afetar tanto a anatomia como a função das glândulas salivares. Contudo, ao longo de toda a vida, afetam a integridade e longevidade dentária e óssea e a mucosa oral, bem como possuem papel importante na resistência à infecção.15

Uma alimentação saudável é aquela que contém todos os nutrientes em quantidades adequadas para garantir o perfeito crescimento, o desenvolvimento da criança e o bom funcionamento do organismo.

alimentacao saudavel infantil

O Ministério da Saúde18 propôs 10 passos para uma alimentação saudável para crianças. Acompanhe-os a seguir:

PASSO 1 | Oferecer alimentos variados, distribuindo-os em pelo menos três refeições e dois lanches por dia. Não pular as refeições. É importante que a criança coma devagar, porque, assim, mastiga bem os alimentos, aprecia melhor a refeição e satisfaz a fome. Preferir alimentos saudáveis típicos da região e disponíveis na sua comunidade.

PASSO 2 | Incluir diariamente alimentos como cereais (arroz, milho), tubérculos (batatas), raízes (mandioca, macaxeira, aipim), pães e massas, distribuindo esses alimentos nas refeições e lanches da criança ao longo do dia. Dar preferência aos alimentos integrais e na forma mais natural.

PASSO 3 | Oferecer legumes e verduras nas duas principais refeições do dia; oferecer também, diariamente, duas frutas nas sobremesas e nos lanches. Todos esses alimentos são fontes de vitaminas e minerais, que ajudam na prevenção de doenças e melhoram a resistência do organismo. Variando os tipos de frutas, legumes e verduras oferecidos, garante-se um prato colorido e saboroso.

PASSO 4 | Oferecer feijão com arroz todos os dias ou, no mínimo, cinco vezes por semana. Essa combinação é muito boa para a saúde. Logo após a refeição, oferecer meio copo de suco de fruta natural (ou meia fruta) que seja fonte de vitamina C, como laranja, limão, acerola, caju e outras, para melhorar o aproveitamento do ferro pelo corpo. Essa combinação ajuda a prevenir a anemia.

PASSO 5 | Oferecer leite ou derivados (queijo e iogurtes) três vezes ao dia. Esses alimentos são boas fontes de proteínas e cálcio e ajudam na saúde dos ossos, dentes e músculos. Se a criança ainda estiver sendo amamentada, não é necessário oferecer outro leite. Carnes, aves, peixes ou ovos devem fazer parte da refeição principal da criança. Além das carnes, oferecer à criança vísceras e miúdos (fígado, moela), que também são fontes de ferro, pelo menos uma vez por semana.

PASSO 6 | Evitar alimentos gordurosos e frituras; preferir alimentos assados, grelhados ou cozidos. Retirar a gordura visível das carnes e a pele das aves antes da preparação, para tornar esses alimentos mais saudáveis. Comer muita gordura faz mal à saúde e pode causar obesidade.

PASSO 7 | Evitar oferecer refrigerantes e sucos industrializados ou alimentos com muito açúcar (balas, bombons, biscoitos doces e recheados), salgadinhos e outras guloseimas no dia a dia. Uma alimentação com muito açúcar e doces pode aumentar o risco de obesidade e cáries nas crianças.

PASSO 8 | Diminuir a quantidade de sal na comida; não deixar o saleiro na mesa. Evitar temperos prontos, alimentos enlatados, carnes salgadas e embutidos, como mortadela, presunto, hambúrguer, salsicha, linguiça e outros, pois esses alimentos contêm muito sal. É importante que a criança se acostume com comidas menos salgadas desde cedo. Sal demais pode aumentar a pressão arterial. Usar temperos, como cheiro verde, alho, cebola e ervas frescas e secas, ou suco de frutas, como limão, para temperar e valorizar o sabor natural dos alimentos.

PASSO 9 | Estimular a criança a beber no mínimo quatro copos de água durante o dia, de preferência nos intervalos das refeições, para manter a hidratação e a saúde do corpo. Use sempre água tratada, fervida ou filtrada para beber e preparar refeições e bebidas. Suco natural de fruta também é uma bebida saudável, mas procure oferecer após as principais refeições. Não se esqueça também de que suco não substitui a água.

PASSO 10 | Além da alimentação, a atividade física regular é importante para manter o peso e uma vida saudável. Estimule atividades como caminhar, andar de bicicleta, passear com o cachorro, jogar bola, pular corda, brincar de esconde-esconde e pega-pega e evite que a criança passe mais que duas horas por dia assistindo TV, jogando videogame ou brincando no computador, contribuem para que ela se torne mais ativa. Criança ativa é criança saudável.

 

Lembre-se: quando falamos de pratos de comida, quanto mais coloridos, mais nutritivos são!

 

Educar para a adoção de hábitos saudáveis de alimentação é importante tanto do ponto sistêmico quanto bucal, e é justamente na primeira infância que estes se estabelecem e (geralmente) persistem ao longo da vida do indivíduo. Portanto, o papel do odontopediatra ou do cirurgião dentista que atende bebes e crianças é também oferecer informações a respeito dos hábitos alimentares que podem interferir na saúde bucal da criança.15

Também é importante salientar que esses profissionais devem ter conhecimento de conceitos básicos de nutrição e dieta e, quando necessário, que trabalhem em conjunto com outros profissionais da saúde, como nutrólogos, nutricionistas e médicos, visando ao bem-estar geral da criança.15

O aconselhamento dietético é fundamental para qualquer programa de prevenção e manutenção de saúde bucal, visto que os hábitos dietéticos adquiridos na infância formam a base para o futuro padrão alimentar.

Conclui-se que a relação da dieta com a cárie se dá por hábitos alimentares incorretos e pelo alto consumo de sacarose com muita frequência, ambos associados a má higiene oral.

 

 

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. KEYES, P. H. The infectious and transmissible nature of experimental dental caries. Arch. Oral Biol., Copenhagen, v. 1, p. 304- 320, 1960.
  2. KEYES, P. H. Recent advances in dental research: bacteriology.  Dent. J., London, v. 12, no. 4, p. 443-464, 1962.
  3. NEWBRUN, E. Cariology. 2nd ed. Baltimore: Williams & Wilkins, 1983.
  4. ALALUUSUA, S.; NYSTRÖM, M. GRÖNROOS, L.; PECK, L. Caries-related microbiological findigs in a group of teenagers and their parents. Caries Res., v.23, p.49-54, 1989.
  5. BERKOWITZ, R. J. e JORDAN, H. V. Similarity of bacteriocins of Streptococcus mutans from mother and infant. Archs. Oral Biol., v. 20, p.725-30, 1975.
  6. BERKOWITZ, R. J.; JONES, P. Mouth – to – mouth transmission of the bacterium streptococcus mutans between mother and child. Archs. Oral Biol., v.30, n.4, p.377-9, 1985.
  7. CAUFIELD, P. W.; RATANARRIDAKUL, K.; ALLEN, D. N. CUTTER, G. R. Plasmid – containing strains of Streptococcus mutans cluster within family and racial cohorts: implications in natural transmission. Infect. Immun., v.56, p.3216 -20, 1988.
  8. CAUFIELD, P. W., LI, Y., DASANAYAKE, A. P. Initial acquisition of mutans streptococci by infants: evidence for a discrete window of infectivity. J. Dent. Res., v.72, p.37-45,1993.
  9. BERKOWITZ, R. J.; TURNER, J. GREEN, P. Maternal salivary levels of Streptococus mutans and primary oral infection of infants. Archs.Oral Biol., v.26, p.147-9, 1981.
  10. MALTZ, M.; CARVALHO, J. Diagnóstico da doença cárie. In: ABOPREV: Promoção de Saúde Bucal, São Paulo: Artes Médicas, 475p, p.69-91, 1997.
  11. KÖHLER, B.; BRATHALL, D. Intrafamilial levels of Streptococcus mutans and some aspects of the bacterial transmission. Scan. J. Dent. Res., v.86, p.41, 1978.
  12. SVANBERG, M. Contamination of toothpaste and toothbrush by Streptococcus mutans. Scand. J. Dent. Res., v.86, p.412-4, 1978.
  13. Lima, JEO. Carie dentaria: um novo conceito. Rev. Dent. Press. Ortodon. Ortop. Facial v. 12, n. 6, p. 119-130, nov. /dez. Maringá, 2007.
  14. Cardoso, CR. et al. Compreendendo a cárie dental. SALUSVITA, Bauru, v. 36, n. 4, p. 1153-1168, 2017.
  15. Correa, MSNP. Odontopediatria na primeira infância. 2ª reimpressão. São Paulo: Santos, 2001.
  16. Parisotto, TM.et al. A Importância da Prática de Alimentação, Higiene Bucal e Fatores Sócio-econômicos na Prevalência da Cárie Precoce da Infância em Pré-escolares de Itatiba –SP. Rev Odontol Bras Central 2010;19(51).
  17. Feijó, IS; Iwasaki, KMK. Cárie dental e dieta alimentar. Re. Uninga Revew. V.19, n.3, p. 44-50, jul-set, 2014.
  18. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção à Saúde. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças de 2 a 10 anos: um guia para o profissional da saúde na atenção básica [Internet]. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2013 [citado 2016 jun 13]. Disponível em: Disponível em: http://www.redeblh.fiocruz.br/media/10palimsa_guia13.pdf
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Dra. Juliana Kuboyama

Cirurgiã dentista com especialização em odontopediatria e odontologia.
Consultório Odondológico – Sorriah Odontologia R. dos Bandeirantes, 531 – Cambuí, Campinas – SP, 13024-011.

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