Odontopediatria

Dentição infantil: sinais e sintomas da erupção dos dentes decíduos

Entenda quais são os principais sintomas que podem estar relacionados à erupção da dentição decídua nas crianças.

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O processo de erupção dental pode ser definido como o movimento migratório realizado por um dente em formação, movendo-se do seu local de desenvolvimento dentro do processo alveolar para a posição funcional na cavidade bucal.

“O início da erupção dental marca um momento muito importante da vida da criança e traz implicações aos que lidam diretamente com a sua saúde”

O início da erupção dental marca um momento muito importante da vida da criança e traz implicações aos que lidam diretamente com a sua saúde: pais, cirurgiões-dentistas e médicos pediatras. Além dos cuidados com a higiene oral, também exigem atenção um grande número de alterações locais ou sistêmicas que ocorrem no mesmo período.1

A erupção dentária, pelas alterações que podem acompanhá-la, surge como um possível transtorno para pais e crianças. É comum os pais não encontrarem nos profissionais de saúde o necessário aporte de informações para que possam reconhecer manifestações relacionadas a este período e, se possível, tentar diminuir sua intensidade.1

A erupção dentária compreende uma série de eventos, que se iniciam pela migração dentária da posição intraóssea em maxila e mandíbula até a posição funcional final, culminando com o aparecimento da coroa dentária no rebordo gengival e permitindo a entrada em oclusão. 3

 

PERÍODOS DE ERUPÇÃO DOS DENTES DECÍDUOS

Geralmente, o primeiro dente decíduo irrompe entre os quatro e dez meses de idade, e todos os dentes decíduos estão presentes na cavidade bucal por volta dos 30 meses de idade. Este período coincide com uma fase em que as crianças passam por mudanças em seu crescimento, desenvolvimento e sistema imunológico, experimentando uma frequência maior de sinais e sintomas que são associados temporariamente à erupção dentária.

Assim, é de fundamental importância o conhecimento da cronologia de erupção dos dentes decíduos. Trazemos esta informação na tabela a seguir:

Tabela 1: Sequencia e cronologia de erupção dos dentes decíduos (em meses).

Fonte: McDONALD, R. E.; AVERY, D. R. Odontopediatria. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001

 

SINAIS E SINTOMAS RELACIONADOS À ERUPÇÃO DOS DENTES DECÍDUOS

O primeiro relato na literatura sobre a relação entre a erupção dos dentes decíduos e os sinais e sintomas como salivação excessiva, febre, distúrbios gastrointestinais e perda de apetite foi descrito por Hipócrates, 460-377 a.C. (Rabdill, 1965).

A partir deste, muitos estudos foram realizados em busca de evidências cientificas que comprovem essa relação. Os sinais e sintomas mais comuns apresentados durante a erupção dos dentes decíduos encontrados na literatura são:

  • o aumento da temperatura,
  • corrimento nasal,
  • apatia,
  • aumento da salivação,
  • perturbações gastrintestinais,
  • irritabilidade,
  • perda de apetite,
  • diminuição do sono,
  • aumento da sucção digital,
  • inflamações gengivais,
  • hiperemia da mucosa,
  • cistos de erupção,
  • úlceras bucais e
  • herpes.4

VERMELHIDÃO NA GENGIVA: A erupção de um dente decíduo geralmente vem acompanhada por vermelhidão da gengiva, o que na maioria das vezes é um achado normal, provavelmente relacionado à hiperemia e refletindo o aumento transitório de vascularização na região. Desta forma, o dente que está irrompendo pode pressionar a lâmina própria da mucosa oral, comprimindo levemente os vasos sanguíneos e outras estruturas e ocasionando prurido na região de mucosa, pouco antes do aparecimento do dente na cavidade oral. Além disso, durante a fusão do epitélio reduzido do órgão do esmalte com o epitélio oral, no período da erupção, há a liberação de IgE, o que pode desencadear uma reação de hipersensibilidade local – fato este que, às vezes, pode provocar febre na criança.5

IRRITABILIDADE E FALTA DE APETITE: Outros sinais e sintomas – como por exemplo a hipersalivação – podem ter como explicação a maturação das glândulas salivares. Logo, a irritabilidade e a falta de apetite estão significantemente relacionadas com a inflamação gengival. Entretanto, a febre tanto pode se dar pelo processo agressivo de dilaceração da gengiva, gerando um quadro inflamatório, quanto pelo estresse causado pela erupção múltipla dos dentes, com queda na resistência orgânica, tornando o bebê mais propenso a infecções.7

DISTÚRBIOS GASTROINTESTINAIS: A ocorrência dos distúrbios gastrointestinais durante a erupção dos dentes decíduos pode estar associada à presença de altos níveis de citocinas inflamatórias no fluido gengival durante o processo de erupção. Entretanto, apesar das perturbações gastrointestinais estarem incluídas entre as alterações associadas ao irrompimento de dentes decíduos, alguns autores acreditam que estes transtornos intestinais não ocorram por causa erupção de dentes, e sim devido a infecções bacterianas. Estas, segundo a teoria, ocorreriam como consequência da contaminação dos dedos (sucção digital) e objetos levados à boca em razão do desconforto gengival apresentado pelas crianças durante a erupção dentária.6

MANIFESTAÇÕES LOCAIS E SISTÊMICAS: A relação entre o processo de erupção dos dentes decíduos e o aparecimento de manifestações locais e sistêmicas na criança ainda constitui um assunto controverso na comunidade médica e odontológica, apesar de serem observados sintomas como sialorreia, diarreia, sono agitado, irritabilidade, aumento de secreção nasal, erupções cutâneas, febre e inapetência, entre outros. Assim sendo, torna-se importante que o profissional fique atento à saúde geral da criança, uma vez que estes possíveis sintomas relacionados à erupção dos dentes decíduos podem, de fato, estar ligados a outra patologia.

 

Sendo assim, é fundamental a interação entre pediatras, odontopediatras e a família da criança, para que se possa determinar a prevalência de possíveis transtornos relacionados à erupção dentária, de tal modo que os mesmos sejam conhecidos e atenuados, uma vez que tais sintomas dependem da completa interação entre os fatores individuais e ambientais, variando numa mesma criança e de criança para criança.8

 

 

Referências científicas

  1. Simeão C. Q. et al. Erupção Dentária: Estudo de suas Manifestações Clínicas na Primeira Infância Segundo Cuidadores e Médicos Pediatras. Pesquisa Brasileira em Odontopediatria e Clínica Integrada [en linea] 2006, 6 (maio-setembro. en:<http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=63760211> ISSN 1519-05
  2. Rabdill, S. X. Teething as a medical problem: changing viewpoints through the centuries. pediatr., Philadelphia, v. 4, n. 9, p. 556-559, Sep. 1965.
  3. Guedes-Pinto AC. Odontopediatria.7a ed. São Paulo: Livraria Santos; 2003.
  4. Faraco Jr IM et al. Conhecimentos e condutas de médicos pediatras com relação à erupção dentária. Rev Paul Pediatr. 2008;26(3):258-64.
  5. Ginani F, Vasconcelos RG, Barboza CAG. Sintomas Locais e Sistêmicos Associados à Erupção Dentária. R bras ci Saúde. 2011;15(1):81-86.
  6. Vasques EFL. Et al. Manifestações relacionadas à erupção dentária na primeira infância – percepção e conduta de pais. RFO. 2010;15(2):124-128.
  7. Mota-Costa R. et al. Percepção de mães sobre a síndrome da erupção dentária e suas manifestações clínicas na infância. Revista de Salud Pública. 2010;12(1):82-92.
  8. Barbosa, S.O. et al. Distúrbios da erupção dentaria: mito ou realidade. Arch Health Invest (2017) 6(3): 102-105.
  9. CORRÊA, M.S.N.P.; et al. Saúde bucal do bebê ao adolescente. Guia de Orientação. São Paulo: Santos, 2005.
  10. Mc Donald R, Avery D. Odontopediatria. Guanabara Koogan.7ed 2001,129-148.
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Dra. Juliana Kuboyama

Cirurgiã dentista com especialização em odontopediatria e odontologia.
Consultório Odondológico – Sorriah Odontologia R. dos Bandeirantes, 531 – Cambuí, Campinas – SP, 13024-011.

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