Alergia & ImunologiaArtigos da SemanaUrgência & Emergência

Anafilaxia = Adrenalina!!! E ponto final.

Compartilhe conhecimento!
  • 983
    Shares

A adrenalina é a medicação imprescindível em casos de anafilaxia. Entenda os benefícios e riscos deste tratamento e quais são os ‘dilemas’ enfrentados pelas equipes médicas na hora de administrá-lo.

Adrenalina para tratamento de Primeiros-Socorros na Anafilaxia – Pediatrics 2017

Sabemos que a anafilaxia é uma situação de risco iminente de morte, além de ser situação de extrema ansiedade para familiares e equipe de saúde. Existem algumas medicações no arsenal terapêutico da anafilaxia, porém somente uma é imprescindível e salva vidas: a ADRENALINA (Epinefrina).

 

 

No mês de fevereiro de 2017, a Academia Americana de Pediatria (AAP) publicou um relatório clínico, atualizando o anterior, que datava de 2007, enfatizando a importância da adrenalina, as doses adequadas, o local de aplicação e os planos de conduta rápida. Abaixo, fazemos um resumo desse relatório, com o objetivo de reforçar a importância da adrenalina no manejo da anafilaxia.

A anafilaxia é definida como uma reação alérgica ou de hipersensibilidade grave, generalizada, de início rápido e potencialmente fatal. A apresentação clínica e gravidade podem variar entre os pacientes e no mesmo paciente de um episódio anafilático para outro. A adrenalina é o tratamento primário inicial da anafilaxia.

A seguir, definimos os critérios clínicos de anafilaxia de acordo com o relatório da AAP, enfatizando que o objetivo deste post não é o diagnóstico e o tratamento passo a passo, e sim reforçar a importância do uso da adrenalina de forma precoce na situação de anafilaxia.

 

CRITÉRIOS CLÍNICOS DA ANAFILAXIA

  1. Início agudo de uma doença (minutos a várias horas), com envolvimento da pele, mucosa ou ambos, com urticária generalizada, prurido ou rubor, edema de lábios/língua/úvula e pelo menos uma das seguintes situações:

    – comprometimento respiratório, como dispneia, sibilância/broncoespasmo, estridor, hipoxemia, ou

    – hipotensão ou sintomas associados a disfunção de órgãos nobres (exemplo: hipotonia, síncope). OU

  2. Dois ou mais dos seguintes sinais que ocorram repentinamente após a exposição a um alérgeno provável para esse paciente (minutos a várias horas):

    – envolvimento de pele e/ou mucosa, ou

    – comprometimento respiratório, ou

    – hipotensão ou sintomas associados a disfunção de órgãos nobres, ou

    – sintomas gastrointestinais persistente, como disfagia, dor abdominal e vômitos; OU

  3. Hipotensão após exposição a um alérgeno conhecido para esse doente (minutos a várias horas):

    – para lactentes e crianças, hipotensão sistólica (específica para idade) ou maior que 30% de diminuição da pressão arterial sistólica basal, e

    – para adolescentes e adultos, pressão arterial sistólica inferior a 90 mmHg ou maior que 30% de redução na pressão arterial sistólica basal.

 

PAPEL PRIMÁRIO DA ADRENALINA

Anti-histamínicos e corticoides não aliviam os sintomas respiratórios, a hipotensão e o choque, por esses motivos não são medicações de primeira linha para o tratamento de anafilaxia.

A adrenalina é a medicação de escolha para o tratamento de primeiros socorros da anafilaxia. Por meio de efeitos vasoconstritores, previne ou diminui o edema da mucosa da via aérea superior (edema laríngeo), a hipotensão e o choque, alem de possuir importantes efeitos broncodilatadores e efeitos cardíacos inotrópicos e cronotrópicos.

A administração imediata de adrenalina pré-hospitalar está associada a um menor risco de hospitalização e óbito. Anti-histamínicos e corticoides não aliviam os sintomas respiratórios, a hipotensão e o choque. Por esses motivos, não são medicações de primeira linha para o tratamento de anafilaxia. São adjuvantes no tratamento e não devem ser utilizados como única medicação.

 

ADMINISTRAÇÃO E DOSE DA ADRENALINA

A adrenalina deve ser administrada no músculo vasto lateral da coxa o mais precoce possível.

A dose recomendada é de 0,01 mg/kg até o máximo de 0,3 mg em crianças pré-púberes e até 0,5 mg em adolescentes e adultos. Os autoinjetores de adrenalina (epinephrine auto-injectors – EAs) podem ser usados ​​em ambientes de cuidados de saúde para administrar uma dose de 0,15 mg em uma criança pequena e uma dose de 0,3 mg em crianças maiores ou adolescentes. Se a resposta a primeira dose for inadequada, ela pode ser repetida uma ou duas vezes em intervalos de 5 a 15 minutos.

 

SEGURANÇA DA ADRENALINA

Os efeitos farmacológicos da adrenalina incluem palidez transitória, tremor, ansiedade e palpitações que, embora percebidos como efeitos adversos, são semelhantes aos sintomas causados ​​pelo aumento dos níveis endógenos de epinefrina produzidos em situações de “luta ou fuga”. Temos que considerar que, na situação de anafilaxia, o benefício da administração da adrenalina é muito maior do que o risco de eventos adversos.

A adrenalina administrada por via intramuscular (IM) alcança concentrações de pico mais rápido do que quando administrada por via subcutânea. A adrenalina na dose de 0,3 mg IM é 10 vezes mais segura do que a adrenalina administrada em bolus intravenoso. Efeitos adversos graves da adrenalina IM são raros em crianças. Não há contraindicação absoluta ao tratamento com epinefrina na anafilaxia.

A adrenalina administrada por via intramuscular (IM) alcança concentrações de pico mais rápido do que quando administrada por via subcutânea.

 

DILEMAS EM DOSAGENS DE ADRENALINA

Existem apenas duas apresentações de EAs disponíveis nos Estados Unidos: 0,15 mg e 0,3 mg. Os fabricantes recomendam a dose de 0,15 mg para pacientes com peso de 15 a 30 kg e a dose de 0,3 mg para aqueles com peso igual ou superior a 30 kg. Estas doses são ótimas para muitas crianças, mas não necessariamente para todas, principalmente para lactentes jovens, em que a dose pode ser considerada alta.

Levando-se em consideração as alternativas ineficazes, risco de dose incorreta e principalmente o atraso na realização da dose, a recomendação é manter a dose de 0,15 mg de adrenalina para crianças pequenas (7,5 – 25 kg), em ambiente extra-hospitalar usando o EA.

 

AUTOINJETOR DE ADRENALINA (EA)

Deve-se prescrever o EA para todos os pacientes que tiveram anafilaxia e que podem ser expostos novamente ao seu gatilho em um ambiente comunitário. Se as circunstâncias específicas o justificarem, também podem ser prescritos para alguns pacientes de alto risco, sem história de anafilaxia.

Finalizamos com os postos chaves levantados neste relatório clínico:

  1. Os critérios clínicos validados estão disponíveis e devem ser utilizados para facilitar o diagnóstico imediato de anafilaxia.
  2. Administração precoce de adrenalina intramuscular, no músculo vasto lateral da coxa, reduz as internações, a morbidade e a mortalidade.
  3. A prescrição de EA ​​facilita a injeção de adrenalina oportuna em ambiente comunitário para pacientes com história de anafilaxia e, se as circunstâncias específicas o justificarem, para alguns pacientes de alto risco que não tiveram histórico de anafilaxia.
  4. Prescrever adrenalina para lactentes e crianças pequenas, com peso <15 kg, especialmente aqueles com peso inferior a 7,5 kg, atualmente apresenta um dilema, porque a menor dose disponível em EAs (0,15 mg) é uma dose alta para essa população, porém é consenso que é melhor usar a adrenalina em dose elevada a não fazê-la.
  5. A gestão eficaz da anafilaxia na comunidade exige uma abordagem abrangente envolvendo crianças, famílias, escolas e organizações desportivas.
  6. A prevenção de recidivas de anafilaxia envolve a confirmação do gatilho, a discussão da exposição a alérgenos específicos, a imunoterapia com alérgenos  e um plano de ação de emergência de anafilaxia escrito e personalizado.
  7. O tratamento da anafilaxia envolve também a educação das crianças e a supervisão de adultos sobre o reconhecimento da anafilaxia e o tratamento de primeiros socorros.

 

EXTRAS:

Administração EpiPen

 

Administração Auvi-Q

Agora vamos voltar para a nossa realidade – Brasil. Infelizmente, não temos disponível no Brasil nenhuma apresentação de adrenalina autoinjetável. Apesar de ser imprescindível que um paciente com antecedente de anafilaxia tenha sempre em mãos a adrenalina autoinjetável, essa não é a nossa realidade. Há anos a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) vem lutando para que esse medicação seja disponibilizada no Brasil. Atualmente, a adrenalina autoinjetável tem que ser importada, e sabemos que uma pequena parcela da população do nosso país tem condições e meios para isso.

Para auxiliar na importação da adrenalina autoinjetável, a ASBAI fez um levantamento de empresas que importam a medicação e como proceder para isso (Onde comprar adrenalina autoinjetável).

Gostou do artigo? Já atendeu um paciente com anafilaxia? Já teve que prescrever adrenalina autoinjetável na alta? Conte-nos sua experiência. Compartilhe conhecimento!

 

Acesse o Artigo na Íntegra

Link de interesse: 

Baixe o artigo em formato PDF!
Tags
Mostrar mais

Dr. Antonio Girotto

Médico pediatra especializado em medicina intensiva pediátrica, com graduação pela Universidade do Sul Santa Catarina e especialização pela Unicamp.

Artigos Relacionados

5 comentários

Deixe uma resposta