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Nicotina e Tabaco Como Substâncias de Abuso em Crianças e Adolescentes

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Texto discutido artigo publicado na revista Pediatrics sobre uso abusivo de tabaco e derivado entre os mais jovens. Acompanhe.

 

Este artigo trata do contínuo aumento da dependência química do tabaco e seus derivados entre crianças e adolescentes, discutindo sobre estratégias de prevenção e tratamento dessa doença, com foco especial na nicotina.

A exposição ao tabaco, seja ela direta ou indireta, intencional ou não, é a principal causa prevenível de adoecimento, incapacidade e morte entre adultos nos Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, apesar das campanhas desestimulando o uso do cigarro e o consequente declínio em seu uso entre os jovens, têm-se evidenciado um aumento em outras formas de contato com o tabaco e seus derivados, especialmente os dispositivos eletrônicos de nicotina, os chamados cigarros eletrônicos.

 

O PODER DA NICOTINA

Nicotiana tabacum
Nicotiana tabacum – foto de Joachim Müllerchen

Os produtos derivados do tabaco contêm inúmeras substâncias nocivas, porém a nicotina é a que tem o maior potencial de desenvolver a dependência no usuário. É um potente parassimpaticomimético, isolado da Nicotiana tabacum, planta originária da América do Sul e agora disseminada ao redor do globo.

A nicotina, por provocar sintomas de vício, dependência, abstinência e ansiedade/desejo, preenche os critérios do CID (Classificação Internacional de Doenças) e do DSM-V (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition) para substância de abuso.

A literatura mostra que a exposição ao tabaco e seus produtos ocorre frequentemente na adolescência e há dados mostrando que, quanto mais cedo essa exposição ocorre, menor a chance de usuário cessar o seu uso. A exposição à propaganda de produtos derivados do tabaco na adolescência já consegue influenciar atitudes e conceitos e é um estágio inicial para o primeiro contato com a substância.

Dos fumantes adultos, 90% começaram a fumar antes dos 18 anos.

Além do potencial viciante da nicotina, outros fatores ambientais (ex: atitude de membros da família quanto ao tabagismo), sociais (ex: amigos tabagistas), comportamentais (ex: situações especiais como fumar sempre que beber álcool) e psicológicos (ex: alívio do stress) estão envolvidos no desenvolvimento da dependência química. Em adolescentes, até o uso infrequente (frequência menor que mensal) é o suficiente para classificá-los como em risco de desenvolver dependência. Há um estudo mostrando um aumento de 10 vezes o risco de dependência nesse grupo de adolescentes que fumam 1 cigarro por mês.

Outro fato é que o uso de cigarros e outras fontes de tabaco (inclusive cigarros eletrônicos) com diferentes sabores/aditivos, tais como mentol, baunilha, entre outros, muito comum entre os jovens, leva a um mecanismo de tolerância por conta do sabor, que facilita o surgimento de dependência, na medida que essa tolerância faz com que o usuário consuma cada vez mais para alcançar o efeito desejado e perca, de certa maneira, a capacidade de percepção da nocividade do produto que está consumindo.

 

COMO O TABACO E A NICOTINA AFETAM O ORGANISMO

A nicotina atua nos receptores nicotínicos do sistema parassimpático (receptores de acetilcolina). Esses receptores estão distribuídos tanto em gânglios autonômicos quanto nas junções neuromusculares e no sistema nervoso central. De acordo com a composição de suas subunidades, a ligação da nicotina ou da acetilcolina aos receptores pode ocasionar diferentes efeitos. A melhor compreensão desses mecanismos moleculares é um dos principais caminhos que a Ciência está percorrendo para tentar desenvolver tratamentos de combate ao uso abusivo e à dependência do tabaco e seus derivados. Já se sabe, também, que especialmente no sistema nervoso central ocorre um upregulation dos receptores secundariamente a uma exposição contínua ou repetida, mecanismo esse que também está envolvido no desenvolvimento da dependência química.

Outro fato preocupante é que está demonstrado, através de estudos epidemiológicos, que o uso de álcool e tabaco aumentam a vulnerabilidade e o uso subsequente de drogas ilícitas. Há, inclusive, explicação neurobiológica, pois são encontradas alterações no funcionamento dos receptores nicotínicos nesses usuários de tabaco e álcool, levando a uma consequente alteração de neurotransmissão e expressão de genes relacionados à dependência química. Sendo assim, o controle do uso do tabaco é uma ação contra o abuso e a dependência de outras drogas ilícitas.

fumo perto de criança

Outro fator que está relacionado aos diferentes graus de dependência à nicotina, assim como aos seus efeitos no organismo, é o polimorfismo genético do sistema do citocromo P450 e dos receptores nicotínicos. A nicotina é metabolizada predominantemente no fígado (85-90%), por enzimas do complexo do citocromo P450. Somente 10% é excretado na urina sem metabolização.

Por conta deste polimorfismo genético, diferentes etnias tendem a se comportar de maneira distintas quanto à capacidade de metabolizar a nicotina e, portanto, apresentam diferentes graus de tolerância à substância, assim como na variação na probabilidade de desenvolvimento de dependência química e facilidade em extingui-la. Os metabolizadores rápidos, como as mulheres e os homens brancos de maneira geral, por exemplo, apresentam mais dificuldades em largar o vício.

Quanto às consequências diretas à saúde dos usuários de produtos derivados do tabaco, cabe ressaltar que grande parte delas não estão ligadas à nicotina e sim a um dano causado pelo monóxido de carbono, substâncias oxidativas e outros componentes do cigarro. Há fortes indícios, entretanto, que a nicotina está diretamente relacionada ao aumento do risco de desenvolver diversos tipos de câncer, especialmente na cavidade oral, esôfago e colo do útero. Também está clara sua correlação com a lipólise e liberação de ácidos graxos na corrente sanguínea, acelerando o processo de arteriosclerose e suas consequências. Além disso são descritas influências da nicotina no funcionamento do sistema imunológico, no metabolismo ósseo, na deterioração da função renal, na fertilidade, na disfunção erétil, no desenvolvimento neuropsicomotor, entre outros.

O uso de nicotina durante a gravidez, especialmente no primeiro trimestre da gestação, pode inclusive estar associado à síndrome da morte súbita na infância.

 

PARTICULARIDADES DA INFÂNCIA E DA ADOLESCÊNCIA

As crianças podem apresentar contato acidental com o tabaco através de ingestão de produtos que contenham seus derivados (refis de cigarros eletrônicos, chicletes de nicotina, entre outros). A ingestão destes produtos pode ocasionar sensação de queimação na boca e garganta, náuseas e vômitos, confusão, tontura, fraqueza e hipersialorreia. Podem ocorrer, nos casos mais graves, taquicardia, hipo ou hipertensão, depressão respiratória, coma, convulsões e parada cardíaca. A dose letal de nicotina em crianças varia de 1 a 13 mg/kg. Reações adversas graves já foram relatadas com ingestão de 2 mg. A ingestão de 1 colher de chá de uma solução concentrada (1,8%) de nicotina para cigarro eletrônico pode ser fatal até para um adulto.  A ingestão de apenas algumas gotas pode levar ao aparecimento de sintomas graves em crianças. Além disso, essas soluções contêm outras substâncias tóxicas, como salicilatos, e podem causar outras toxissíndromes.

Os jovens usuários de tabaco, especialmente por conta das particularidades metabólicas, também apresentam maiores dificuldades em largar o vício de nicotina. Quanto mais cedo o jovem adquire o vício, maior tende a ser a dependência e menor o sucesso em parar de fumar.

Somente 4% dos adolescentes entre 12 e 19 anos conseguem parar de fumar.

 

TRATAMENTOS ANTITABAGISTAS

Apesar de o tratamento farmacológico para a dependência ao tabaco ser eficaz e ser utilizada largamente em adultos, com sucesso, especialmente nos Estados Unidos, ainda são necessários maiores estudos quanto ao seu uso na população adolescente. Não existem dados consistentes sobre sua eficácia, segurança e muito menos uma estratégia eficaz nessa população jovem. O uso de cigarros eletrônicos, paradoxalmente, parece não só falhar em auxiliar o adolescente a largar o vício, como encoraja o adolescente a manter o hábito nocivo.

O desenvolvimento de uma vacina antivício, que atuaria no bloqueio dos efeitos positivos da nicotina sobre o organismo, está em estudo.

Entretanto, como já foi ressaltado, o início precoce do tabagismo está fortemente relacionado com o grau de dependência e com a falha das tentativas de parar de fumar, além de que a nicotina leva a efeitos deletérios no neurodesenvolvimento. Sendo assim, é essencial que a prevenção ao início do uso do tabaco seja foco primordial das políticas de saúde pública. As principais ações eficazes neste público são as intervenções comportamentais e estratégias motivacionais.

 

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Dr. Sidney Volk

Médico pediatra especializado em medicina intensiva pediátrica, com graduação e especialização pela Unicamp. Membro do corpo editorial do PortalPed.

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