Endocrinologia

Amamentar por Seis Meses ou Mais Reduz pela Metade o Risco de Diabetes Tipo 2

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Estudo de trinta anos revela o benefício da amamentação prolongada também para as mães.

 

Alguns estudos recentes já haviam demostrado uma forte correlação entre amamentação e possibilidades menores de desenvolvimento de câncer de mama e ovário para as mães. Agora, um estudo de grande impacto — dado o número de participantes e o período de tempo analisado — mostra que amamentar pode trazer ainda outro benefício: diminuir a incidência de diabetes mellitus tipo 2 (DM2) conforme as mães envelhecem.

Os resultados foram publicados, com forte repercussão, no JAMA Internal Medicine deste mês. O estudo “Lactation Duration and Progression to Diabetes in Women Across the Childbearing Years” (leia o artigo completo logo abaixo) analisou dados de mais de 1.200 mães brancas e negras nos Estados Unidos durante 30 anos.

 

paper lactation and type 2 diabetesO ESTUDO

  • Lactation Duration and Progression to Diabetes in Women Across the Childbearing Years
    The 30-Year CARDIA Study
  • Erica P. Gunderson, Cora E. Lewis, Ying Lin et al
  • JAMA Intern Med. Published online January 16, 2018. doi:10.1001/jamainternmed.2017.7978

 

De acordo com os pesquisadores, amamentar durante seis meses ou mais foi correlacionado a uma redução de até 47% no risco de desenvolver DM2, mesmo levando-se em consideração fatores nunca antes analisados por outros estudos, como medições bioquímicas pré-gravidez, fatores de risco clínicos e demográficos, diabetes gestacional, comportamentos no dia a dia e ganho de peso.

 

30 ANOS DE ESTUDO PARA CHEGAR ÀS CONCLUSÕES

Os resultados vêm da análise de dados do estudo CARDIA — Coronary Artery Risk Development in Young Adults, um trabalho de escala nacional nos EUA e que envolveu diversos centros de saúde.

estudo cardia
O estudo CARDIA teve início em 30 de dezembro de 1983 – este é seu logo original

Este artigo em questão analisou dados de mulheres de 18 a 30 anos que ficaram grávidas em 1985 e 1986. Foram selecionadas 1.238 para o trabalho, após passarem por triagem confirmando não estarem com diabetes à época. Ao longo de 30 anos, essas mulheres receberam periodicamente um checkup médico completo, o qual incluía critérios diagnósticos de diabetes. Além disso, as participantes relatavam à base de dados do estudo algumas características de seu comportamento no dia a dia, hábitos alimentares, prática de exercício físico e o total de tempo durante o qual amamentaram seus filhos.

“A incidência de diabetes diminuiu de maneira gradual conforme o tempo de amamentação aumentou, independentemente de raça, da ocorrência de diabetes gestacional, dos estilos de vida, do tamanho do corpo e de outros fatores de risco metabólicos medidos antes da gravidez”, explica a principal autora do estudo, a Dra. Erica P. Gunderson, pesquisadora sênior na Divisão de Pesquisa do grupo Kaiser Permanent. “Isso implica na possibilidade de que mecanismos biológicos podem estar por trás desse efeito”, afirmou a pesquisadora.

 

Dentre os mecanismos biológicos que poderiam explicar o efeito protetor da amamentação, os pesquisadores apostam na influência de hormônios relacionados à lactação nas células beta pancreáticas, ajudando a controlar os níveis de insulina e, consequentemente, a glicemia.

 

EFEITO PROTETOR DA AMAMENTAÇÃO

Mulheres que amamentaram por seis meses ou mais tiveram 47% menos chances de desenvolver DM2 quando comparadas a mulheres que não amamentaram. Se o tempo de amamentação foi de seis meses ou menos, o impacto foi menor, sendo que risco foi reduzido para 25%.

Poucas diferenças foram encontradas nos resultados de mulheres brancas e negras. Corroborando resultados de estudos anteriores, os dados do CARDIA mostraram que as mães negras tinham três vezes mais chances que as brancas de desenvolverem DM2; além disso, eram proporcionalmente menos propensas a amamentar. Mesmo assim, as reduções nos riscos de DM2 foram praticamente iguais entre os grupos de lactantes.

mae negra e filho no colo

“Diferentemente de estudos anteriores sobre amamentação, baseados em relatos das próprias participantes sobre o início do diabetes e que começaram a acompanhar as mulheres mais tarde em suas vidas, nós conseguimos acompanhar mulheres especificamente durante o período de gravidez, e analisamos sua saúde tanto antes quanto depois do parto”, explicou Gunderson.

Os pesquisadores afirmam que os resultados trazem mais um elemento para que médicos, profissionais de saúde e políticos fortaleçam a mensagem de que a amamentação é essencial para boa saúde dos bebês – e também das mães.

 

AMAMENTAÇÃO PROLONGADA – VASTAS EVIDÊNCIAS DE BENEFÍCIOS AOS FILHOS

A amamentação, por si só, comprovadamente diminui as chances da criança de desenvolver asma e alergias. Durante os seis primeiros meses de vida, uma alimentação baseada exclusivamente no aleitamento materno resulta em redução de casos de diarreia, doenças respiratórias e otites, com menos hospitalizações e visitas ao médico.

Mas os efeitos mais interessantes começam a aparecer quando a amamentação ultrapassa a marca dos seis meses. Estudos (ainda não 100% conclusivos) mostraram correlação entre um tempo maior de amamentação e riscos menores de sobrepeso e obesidade, diabetes tipo 1 e tipo 2, doença celíaca e até mesmo alguns tipos de câncer.

crianca inteligente e amamentacao

Uma ideia muito difundida é a de que o aleitamento materno é correlacionado a QI mais alto nas crianças conforme elas envelhecem. Este, infelizmente, pode ser meramente um mito. Estudo publicado no último ano no Pediatrics, liderado por pesquisadores do University College Dublin, mostrou que não havia diferenças cognitivas e de linguagem significativas entre crianças de cinco anos que foram amamentadas e que receberam fórmulas infantis. Foram encontradas “modestas” diferenças quando as crianças estavam com três anos (as amamentadas tiveram escores cognitivos mais altos), porém tal efeito foi reduzido após entrarem na escola. De acordo com os pesquisadores, os resultados anteriores, mostrando aumento de QI em crianças amamentadas por pelo menos seis meses, não levaram em consideração os aspectos socioeconômicos importantes das mães, como nível de escolaridade e renda.

 

 

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