Endocrinologia

Tratamento das Dislipidemias na Infância

Quais são as abordagens terapêuticas farmacológicas e não farmacológicas para tratamento da dislipidemia em pacientes pediátricos?

Destaques

  • Já abordamos anteriormente no PortalPed o tema dislipidemias, e este artigo visa a complementar o assunto, discutindo algumas atualizações sobre o tratamento desta entidade.
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Quando falamos em dislipidemia, a primeira questão é determinar o porquê da doença. Sabemos que os principais fatores de risco de dislipidemia na infância são o sobrepeso e a obesidade, e por isso todas as crianças com dois anos ou mais que tiverem seu índice de massa corporal (IMC) acima da linha +1 no gráfico de z escore devem necessariamente ter seu perfil lipídico determinado. Entretanto, há outra entidade que preocupa tanto ou mais do que este primeiro critério: a hipercolesterolemia familiar (HF).

São critérios para a suspeita de HF:

  • Sinais clínicos de depósito extravascular de colesterol;
  • Taxas elevadas de LDL ou colesterol total no plasma;
  • História familiar de hipercolesterolemia e/ou doença aterosclerótica prematura;
  • Identificação de mutações e polimorfismos genéticos que favoreçam o desenvolvimento da HF.

 

 

PERFIL LIPÍDICO PEDIÁTRICO: CRITÉRIOS LABORATORIAIS

Os critérios laboratoriais para a análise dos níveis de perfil lipídico para a população pediátrica variam de acordo com a referência. A V Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, traz os seguintes valores:

Valores referenciais do perfil lipídico para a faixa etária entre 2 e 19 anos (V Diretriz Brasileira de Dislipidemias)

 

DISLIPIDEMIAS: ABORDAGEM TERAPÊUTICA

A abordagem terapêutica para tratamento das dislipidemias é dividida em não farmacológica e farmacológica.

Terapia não farmacológica

Nutroterapia: Visa à alteração dos hábitos alimentares, com a finalidade de se adotar dieta saudável e adequada para o paciente com dislipidemia. Após uma avaliação detalhada da atual ingestão energética do paciente, recomenda-se confecção de um plano alimentar com redução inicial de 20% da oferta energética atual. As gorduras não deverão ultrapassar 30% do valor energético total (VET), distribuídas em 7% de gordura saturada, 13% de poli-insaturada e 10% de monoinsaturada. O uso de 3 colheres de sopa por dia de farelo de aveia tem o poder de diminuir a absorção do colesterol pelo intestino, contribuindo para uma redução inicial do LDL.

Atividade física: É uma das principais medidas para a redução da incidência de doença arterial coronariana (DAC). A maior parte do exercício físico diário deve ser aeróbico, e atividades de intensidade vigorosa devem ser incorporadas pelo menos 3 vezes na semana, inclusive aquelas que promovem aumento de força muscular e óssea. Define-se atividade física moderada ou vigorosa como uma ação que causa aumento nas frequências cardíaca e respiratória. Em uma pessoa saudável, usualmente está associada à caminhada mais veloz, dança, natação ou ao ciclismo em terreno plano.

 

Terapia farmacológica

A American Heart Association e a Academia Americana de Pediatria recomendam terapia farmacológica a partir dos 8 anos de idade, após 6 a 12 meses de tratamento não farmacológico sem resultado satisfatório. As medicações são indicadas se o LDL estiver acima de 190mg/dL, ou se acima de 160mg/dL na presença de sobrepeso ou obesidade e mais um fator de risco associado (parentes de primeiro grau com DAC prematura, HDL < 35 mg/dL, tabagismo, HAS ou diabetes mellitus).

As medicações disponíveis para uso na faixa etária pediátrica são:

  • Fitoesterois: 1.6g por dia, considerando aporte na dieta mais medicação. A expectativa é a redução de 8% no LDL.
  • Estatinas: inicia-se com Sinvastatina na dose mais baixa (10mg/dia), e monitorizar perfil lipídico, TGO, TGP e CPK cada 3 meses.
  • Resinas: a colestiramina pode ser iniciada na dose de 4g/dia, e quando usada em concomitância com uma estatina, pode reduzir o LDL em até 19%.
  • Ezetimibe: é um inibidor seletivo da absorção do colesterol, com poder de redução do LDL em até 25% quando usado juntamente com uma estatina.
  • Inibidores de PCSK-9: atuam no interior da célula, inibindo a proteína de degradação do receptor de membrana do LDL (LDLR), aumentando a captação celular do LDL.

 

Conclusão

A hipercolesterolemia é um problema de saúde pública, cuja prevenção deve se iniciar ainda na faixa etária pediátrica. Medidas simples de mudança de estilo de vida têm um impacto positivo na prevenção de DAC na idade adulta. Embora a terapia farmacológica seja possível a partir dos 8 anos de idade, deve-se ponderar que as medidas não farmacológicas são as primeiras a serem consideradas, além de serem a abordagem mais importante nesta morbidade.

 

 

Referências Científicas

  • V Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, da Sociedade Brasileira de Cardiologia
  • I Diretriz Brasileira de Hipercolesterolemia Familiar da Sociedade Brasileira de Cardiologia
  • I Consenso da Associação Brasileira de Nutrologia sobre tratamento das dislipidemias em obesidade infantil
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Dr. Renato Zorzo

Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (1998). Especialização em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia, ABRAN (2013). Títulos de Especialista em Pediatria, Especialista em Nutrologia e título de Atuação na Área de Nutrologia Pediátrica. Pós-graduação em Nutrição Pediátrica pela Boston University School of Medicine. Membro do Editorial Board do International Journal of Nutrology. Membro do Departamento de Nutrição da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). Vice-presidente da regional ribeirãopretana da SPSP.
Endereço do consultório: Avenida Itatiaia, 1019 – Jd Sumaré – Ribeirão Preto, SP – 14025-070

Fone: (16) 3442-9915 / (16) 98811-9915

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