Alergia & Imunologia

Asma e alergias: Atualizações Científicas (agosto/17)

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Anticorpos ‘do campo’ podem ajudar a prevenir alergias; qual a relação entre consumo de açúcar na gravidez e a asma?

Estimativas indicam que aproximadamente 30 a 40% das crianças atualmente convivem com algum tipo de alergia. Entre os adultos, a taxa chega a 30%.

O número de crianças que sofrem de alergias ou de asma aumentou significativamente nas últimas décadas, principalmente em países industrializados. Este aumento acendeu o alerta vermelho em grupos de pesquisadores, que buscam entender as causas e encontrar possíveis soluções para a questão. Recentemente, duas novidades impactantes foram publicadas em periódicos respeitados, e o PortalPed traz os principais destaques para nossos leitores.

 

A PROTEÇÃO QUE VEM DO CAMPO – ANTICORPOS ‘RURAIS’ PROTEGEM DE ALERGIAS

crianca com vaquinha na fazendaComo vimos acima, o número de crianças que possuem alguma alergia tem crescido constantemente nos últimos anos. Contudo, esse número tem aumentado de forma bem menos dramática em crianças que vivem no ambiente rural.

Já é sabido que o contato com micróbios que existem em maior quantidade e variedade em fazendas protege as crianças de alergias e asma [1]. Diversos estudos demonstraram que um ambiente não exatamente ‘higiênico’ pode ter um efeito positivo no desenvolvimento do sistema imune, ao ‘ensiná-lo’ a reagir corretamente contra elementos potencialmente nocivos e não contra-atacar materiais inofensivos.

Um estudo recente realizado por um grupo de imunologistas da Universidade de Zurique, entretanto, mostrou que não são apenas os micróbios da zona rural que ajudam a proteger as crianças de alergias. De acordo com os resultados da pesquisa, publicados no último mês no Journal of Allergy and Clinical Immunology, o contato com um tipo de ácido siálico – denominado ácido N-glicolilneuramínico (Neu5Gc) – encontrado em muitos vertebrados, mas que não é produzido pelo ser humano, é relacionado à prevenção de inflamações pulmonares.

Assim, fazer carinho em animais e beber leite diretamente de vacas – exemplos de interações que colocam as crianças em contato com o ácido siálico – pode ajudar na prevenção de alergias.

O contato com animais na infância e o consumo de alimentos de origem animal parece regular as reações inflamatórias do sistema imune”, diz o imunologista Remo Frei, do Instituto Suíço de Pesquisas em Asma e Alergias da Universidade de Zurique e primeiro autor do artigo científico.

Quando entra em contato com o ácido siálico Neu5Gc, o organismo humano confronta-o de duas maneiras:

  • absorvendo-o e integrando-o em suas glicoproteínas, ou
  • produzindo um tipo de anticorpo contra a molécula.

Sabendo disso, os pesquisadores mediram as concentrações desses anticorpos no sangue de mais de mil crianças que participavam de estudos epidemiológicos de grande coorte (os estudos PARSIFAL e PASTURE) europeus.

Crianças que crescem em fazendas têm uma quantidade muito maior de anticorpos contra Neu5Gc – e crianças com mais anticorpos sofrem consideravelmente menos de asma”, afirma Frei.

criancas na fazenda

Os resultados foram confirmados também em camundongos. Animais que consumiram alimentos com moléculas de Neu5Gc mostraram uma melhora em sua função pulmonar, o que consequentemente reduziu sintomas de asma.

Para entender como o Neu5Gc afeta o sistema imune, os pesquisadores analisaram diversas células de defesa tanto do organismo humano como de camundongos, e obtiveram resultados interessantes. O contato com Neu5Gc não reduziu os níveis de imunoglobulina E, um anticorpo que é frequentemente associado a reações alérgicas. O Neu5Gc, na verdade, iniciou uma reação anti-inflamatória do sistema imune.

“Isso ocorre por meio das chamadas células-T regulatórias”, explica Frei. “Essas células-T diminuem as respostas incorretas do sistema imune e têm um forte efeito anti-inflamatório”.

A descoberta gera novas oportunidades terapêuticas, mediadas pelas células-T. “Nossos resultados abrem possibilidades de transferir o efeito protetor presente nas fazendas para todas as crianças. Dessa forma, podemos fornecer um novo e importante alicerce para a prevenção de alergias”, conclui o pesquisador.

 

ALERGIAS E O CONSUMO DE AÇÚCAR NA GRAVIDEZ

acucar e gravidez

As chances de crianças desenvolverem alergias na infância também pode ser aumentada pelo consumo exagerado de açúcar por parte das mães durante a gravidez.

Os dados deste trabalho foram baseados no Avon Longitudinal Study of Parents and Children (ALSPAC), um estudo global que recrutou mulheres grávidas durante os anos 90 e acompanhou o crescimento de seus filhos.

Esse é o resultado de um estudo com quase 9 mil pares de mães e filhos realizado por pesquisadores da Queen Mary University of London. A pesquisa foi motivada pelo fato de que já existem algumas evidências de que o consumo em excesso de bebidas com alto teor de açúcar pode aumentar as chances de asma em crianças, mas pouco se sabia sobre a relação entre o consumo de açúcar materno durante a gravidez e alergia e asma em seus filhos.

O trabalho, publicado também em julho no European Respiratory Journal, comparou o grupo de mães que mais ingeriram açúcar durante a gravidez com o grupo de mães que menos ingeriram açúcar – cada grupo era composto por cerca de 20% da amostra total. O resultado mostrou que os filhos das mães do primeiro grupo tinham uma chance 38% maior de desenvolver alergias e 101% maior de desenvolver asma alérgica. Os pesquisadores, entretanto, não encontraram diferenças quando analisaram eczema e rinite alérgica. As alergias foram definidas por testes de pele com resultados positivos para os alérgenos mais comuns, incluindo ácaros e gatos.

A pesquisa especula que os resultados podem ser explicados pelo alto consumo de frutose, que causa uma resposta imune alérgica persistente durante o período pós-natal e que leva a uma inflamação alérgica nos pulmões em desenvolvimento dos bebês. Fatores sociais e outros aspectos da dieta das mães foram controlados para não influenciar nos resultados.

“Nós não podemos afirmar categoricamente, baseados nessa observação, que o consumo de açúcar em excesso na gravidez está causando alergia e asma alérgico nos bebês”, diz Seif Shaheen, médico especialista em epidemiologia respiratória e um dos autores do artigo. “Entretanto, dado o consumo extremamente alto de açúcar no Ocidente, nós certamente investigaremos essa hipótese de maneira mais aprofundada e com certa urgência”, explica o médico.

“O primeiro passo é tentar replicar esses resultados em estudos diferentes com mães e filhos. Se conseguirmos fazer isso, vamos testar se é possível prevenir alergia na infância e asma alérgico ao reduzir o consumo de açúcar na gravidez. Até lá, nossa recomendação é que mulheres grávidas sigam as atuais diretrizes e evitem o consumo excessivo de açúcar”, completa o pesquisador.

 

 

PARA SABER MAIS

Mais informações podem ser obtidas nos respectivos estudos, com links logo a seguir.

  • [1] Adam Wells et al. Influence of farming exposure on the development of asthma and asthma-like symptoms. Int Immunopharmacol. 2014 Nov; 23(1): 356–363.
    Acessar Paper
  • Remo Frei et al. Exposure to non-microbial N -Glycolylneuraminic acid protects farmers’ children against airway inflammation and colitis. Journal of Allergy and Clinical Immunology (2017). DOI: 10.1016/j.jaci.2017.04.051
    Acessar Paper
  • Annabelle Bédard et al. Maternal intake of sugar during pregnancy and childhood respiratory and atopic outcomes. European Respiratory Journal 2017 50: 1700073; DOI: 10.1183/13993003.00073-2017
    Acessar Paper
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