Neurologia

Deixe as crianças brincarem na rua! Estudo relaciona luz solar a riscos menores de esclerose múltipla

Grupo que passou mais tempo sob o sol durante a infância e a adolescência teve menos riscos de desenvolver esclerose múltipla, revela estudo da Neurology.

Destaques

  • Pesquisadores da University of British Columbia mostram que passar a infância em áreas com alta incidência de luz solar está relacionado a riscos menores de esclerose múltipla (EM) durante a vida adulta.
  • Estudo aponta redução de até 45% das chances de EM em mulheres que cresceram em regiões com alta incidência de luz solar.
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O estudo científico de maior repercussão na edição de março da Neurology – um dos mais respeitados e aclamados periódicos científicos do mundo – trata de um tema que tem tudo a ver com o Brasil. Pesquisadores da University of British Columbia, no Canadá, mostraram que passar a infância em áreas com alta incidência de luz solar está relacionado a riscos menores de esclerose múltipla (EM) durante a vida adulta.

Estudos anteriores já haviam demonstrado que há correlação entre a quantidade de luz solar e os riscos de EM, porém este foi o primeiro trabalho, segundo os pesquisadores, que analisou a influência da exposição ao sol durante toda a vida.

 

“Descobrimos que o local em que uma pessoa vive e a idade na qual é exposta aos raios UV-B podem ter papel importante na redução dos riscos de EM”, disse a dra. Helen Tremlett, professora de epidemiologia em Columbia e principal autora do estudo.

Os resultados são bastante interessantes para quem cuida de crianças em um país ensolarado como o Brasil. Apesar do estudo ter sido feito a partir de dados de voluntários dos Estados Unidos, vale notar que aquele país é amplo e houve uma grande variação na quantidade de luz solar que os participantes receberam enquanto cresciam. Em algumas regiões mais ao sul dos Estados Unidos, por exemplo, a incidência de raios UV-B é bastante similar à que encontramos no Brasil.

 

METODOLOGIA

O grupo populacional analisado neste estudo é bastante limitado etnicamente – 98% eram mulheres, de cor de pele clara; todas dos Estados Unidos -, mas representa uma parcela estatisticamente considerável da população norte-americana, especialmente se considerada a área geográfica estudada. Foram 386 participantes no total, incluindo 151 mulheres com EM e 235 que não desenvolveram a doença. Todas responderam a extensos questionários sobre exposição ao sol durante os verões, invernos e no geral ao longo da vida.

Neste grupo, dentre as mulheres que desenvolveram esclerose múltipla, a idade média do diagnóstico foi aos 40 anos.

Os pesquisadores analisaram pormenorizadamente os dados dos questionários e cruzaram as informações com a posição geográfica onde cada participante cresceu. Fatores como latitude, altitude e média de cobertura de nuvens nas cidades foram levados em consideração. Além disso, foi considerado o quanto de sol as mulheres tomaram durante os verões e os invernos. Os dados foram corrigidos de acordo com o índice de massa corporal, histórico familiar, hábito de fumo e a suplementação de vitamina D de cada uma.

 

OS RESULTADOS: LUZ SOLAR COMO PROTEÇÃO À EM

Tomar sol também na idade adulta parece ter efeitos protetores em relação à EM

Os resultados são bastante interessantes para a saúde dos jovens que gostam de aproveitar o tempo livre ao sol.

De acordo com o estudo, mulheres que viveram dos 5 aos 15 anos em regiões com alta incidência de raios UV-B tiveram riscos até 51% menores de desenvolver EM conforme envelheceram. Além disso, aquelas que passaram mais tempo ao ar livre nos verões, durante esta faixa etária, em cidades com índice mais alto de UV-B, tiveram riscos reduzidos em 55% de desenvolver a doença.

Dentre o grupo de mulheres que desenvolveram EM ao longo da vida, a maior parte teve pouca exposição à luz solar durante a infância e a adolescência.

“Nossos resultados sugerem que uma maior exposição aos raios UV-B solares, maior exposição ao ar livre durante o verão e riscos menores de EM podem ocorrer não apenas durante a infância, mas também nos primeiros anos da vida adulta”, escrevem os pesquisadores. “Ademais, a pesquisa mostra que aquelas mulheres que desenvolveram EM tiveram exposição menor à luz solar durante a vida adulta, tanto no verão quanto no inverno, o que pode ter resultado em consequências para a saúde”.

No geral, quando foram comparadas mulheres que viveram em regiões com alta e baixa incidência de luz solar, em todos os grupos etários pré-diagnóstico de EM, aquelas que passaram mais tempo sob o sol tiveram riscos 45% menores de desenvolver a doença.

Apesar da exposição à luz solar também oferecer riscos – como queimaduras e chances maiores de câncer de pele -, o estudo é mais um que mostra o lado positivo de passar mais tempo ao ar livre, inclusive durante a infância e adolescência. Estudos anteriores haviam correlacionado a produção de vitamina D, intrínseca à exposição solar, aos riscos de esclerose múltipla ao longo da vida. Eles mostraram que baixa quantidades da vitamina poderiam aumentar os riscos da doença.

Em uma época em que brincar fora de casa é uma atividade cada vez menos frequente, tendo sido substituída por diversões eletrônicas e pela ‘fuga do sol’, é importante orientarmos pais e mães sobre a importância de passar mais tempo ao ar livre com os filhos, tomando sempre as devidas precauções (como uso de repelentes e filtros solares).

 

 

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