Nutrologia

Estudo: bebidas para crianças parecem saudáveis, mas estão repletas de açúcares e adoçantes escondidos

Pesquisa revela perfil de bebidas vendidas especificamente para crianças, e encontra problemas sérios no marketing e nas embalagens.

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A cada três anos, o Rudd Center for Food Policy & Obesity da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, realiza um interessante estudo. Pesquisadores analisam dados de consumo de bebidas cujo marketing é focado no público infantil, a fim de descobrir…

  • o que as crianças estão bebendo,
  • o que os pais estão comprando e
  • o que isso significa para a saúde dos pequenos.

A pesquisa é mais do que relevante em um país no qual os índices de obesidade e sobrepeso infantil têm atingido níveis históricos, estimulados por uma cultura de maus hábitos alimentares que se iniciam já na infância. Nesse contexto, a American Academy of Pediatrics e a American Heart Association alertam que é urgente a adoção de políticas e de estratégias que reduzam o consumo de bebidas industrializadas e açucaradas pelas crianças.

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O consumo de bebidas industrializadas para crianças movimentou mais de 2,2 bilhões de dólares em 2018 nos EUA — e a grande maioria delas não era nada saudável, como veremos a seguir.

A pesquisa do Rudd Center se chama Children´s Drink FACTS, e a versão de 2019 acaba de ser publicada. O estudo analisou as vendas, estratégias de marketing e conteúdo nutricional de…

  • 34 marcas de bebidas açucaradas (sucos de frutas, águas com sabores de frutas e misturas destes) e
  • 33 marcas de bebidas sem açúcares adicionais (100% suco, misturas de suco-água e uma marca de água com gás para crianças) em 2018.

Cada uma delas obteve pelo menos 10 milhões de dólares de faturamento no ano passado. Confira os principais resultados do estudo a seguir.

 

SAUDÁVEIS NA SUPERFÍCIE

As bebidas com grande quantidade de açúcares adicionais e adoçantes foram as campeãs de vendas no segmento infantil, correspondendo a 64% do faturamento das bebidas para crianças. Movimentaram impressionantes 1,4 bilhão de dólares no ano.

PortalPed - embalagens de sucos para criancas nos estados unidos
Marcas capricham em embalagens com imagens de frutas, mas pouquíssimas possuem qualquer quantidade de suco natural.

 

Além disso, foram também as campeãs de gastos em marketing. As empresas investiram quase 21 milhões de dólares em 2018 em propagandas para este tipo de bebida. Com isso, em média, as crianças assistiram na TV a duas vezes mais propagandas de bebidas açucaradas do que daquelas sem açúcar, e viram quatro vezes mais comerciais de bebidas açucaradas do que um adulto.

Das bebidas que continham qualquer traço de suco de frutas, a porcentagem dele na composição costuma ser de meros 5%.

Apesar de conterem altas quantidades de açúcar — 1/3 de todas as bebidas de frutas continham 16 g ou mais de açúcar por porção, o equivalente a quatro colheres de chá —, a maior parte das marcas apresenta uma imagem aparentemente “natural” em suas embalagens, com fotografias de frutas e poucas informações sobre o conteúdo nutricional, o que pode confundir os pais na hora de escolher uma bebida pronta para seus filhos. Para se ter uma ideia do problema, dentre as bebidas açucaradas, 85% continham uma foto de frutas na embalagem, mas apenas 35% delas tinham alguma porcentagem de suco de frutas em sua composição.

Das 33 marcas de bebidas açucaradas vendidas para crianças, 65% continham açúcares adicionais e 74% continham adoçantes de baixa caloria. Tais informações não estavam claras nas embalagens, em especial a adição de adoçantes artificiais.

Nenhuma delas era nutricionalmente adequada, de acordo com parâmetros de especialistas, para serem servidas a menores de 14 anos.

 

OS PAIS SABEM O QUE ESTÃO COMPRANDO?

PortalPed - pais e filhos no supermercado

“Você não deveria ser nutricionista para entender se um produto é saudável ou não para sua criança”, comentou a Dra. Maria Romo-Palafox, umas das autoras do estudo e professora de Nutrição e Dietética na Universidade de Saint Louis, nos EUA.

“Vendo a parte da frente das embalagens, parece que as bebidas para crianças são saudáveis, mas não há como saber quais delas possuem açúcares adicionais ou adoçantes de baixa caloria ao ler as informações da frente. Você precisa ler o painel de ‘informações nutricionais’ na parte de trás, além de ter de saber os nomes de adoçantes de baixa caloria, como acesulfame de potássio e sucralose, para entender que eles estão no produto”, explicou a pesquisadora.

Com o objetivo de combater o sobrepeso infantil, o estudo defende que um dos principais pontos que a indústria alimentícia deve trabalhar é a comunicação dos produtos com os pais. Nesse quesito, os pesquisadores sugerem que…

  • Bebidas açucaradas não deveriam ser comercializadas focando as vendas nas crianças;
  • Suas embalagens deveriam evitar a utilização de imagens que remetessem à ideia de que sejam “saudáveis”;
  • Além disso, as embalagens deveriam explicitar a quantidade de suco natural no produto e o quanto de açúcar e de adoçantes foi adicionado.

 

O MERCADO TEM MELHORADO

Um lado positivo da pesquisa foi descobrir que as vendas de bebidas sem açúcares adicionais vêm aumentando nos últimos anos e que há maior variedade de marcas para o consumidor escolher. As 33 marcas analisadas dessa categoria venderam mais de 800 milhões de dólares em 2018.

A análise nutricional desse segmento revelou que, em média, cada porção das bebidas continha menos de 50 kcal, o que é um índice bastante positivo.

Outro ponto interessante foi notar que, com apenas uma exceção, personagens licenciados foram usados apenas em comerciais de bebidas não adoçadas, o que representa uma melhora significativa em relação aos dados de 2014.

O mercado, portanto, está atendo às mudanças comportamentais do público. Mas a indústria alimentícia ainda tem um longo caminho a percorrer a fim de explicar, em termos absolutamente claros aos pais, o que eles estão comprando para seus filhos.

 

E NO BRASIL? CONSULTA PÚBLICA DA ANVISA PODE MUDAR ROTULAGEM DE ALIMENTOS

A ANVISA mantém aberto até o dia 09/12 o prazo para Consulta Pública sobre rotulagem nutricional. A agência propôs, recentemente, uma série de mudanças na maneira como fabricantes de produtos industrializados devem apresentar as informações nutricionais em rótulos e embalagens. Dentre as medidas mais impactantes está a sugestão de adoção de triângulos pretos de alerta sobre altas quantidades de sódio, açúcar e gorduras saturadas nos alimentos (veja na imagem acima), o que poderia alterar substancialmente a maneira como refrigerantes e outras bebidas açucaradas são vendidas e a percepção do público sobre elas.

A Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, o Instituto de Defesa do Consumidor e a Unicef lançaram uma ampla campanha para que o público defenda estas medidas sugeridas pela ANVISA. Saiba mais no vídeo a seguir e no link do website oficial da campanha.

Website oficial da campanha

 

 

 

REFERÊNCIAS

O estudo completo – chamado Children´s Drink Food Advertising to Children and Teens Score 2019 – pode ser lido na íntegra, em inglês, no link abaixo.

Leia o estudo completo (em inglês)

 

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