Nutrologia

Leite integral para crianças é correlacionado a riscos MENORES de sobrepeso e obesidade

Uma nova análise de dados de saúde, publicada em um dos principais periódicos científicos sobre nutrição, pode mudar a maneira como o leite integral é indicado para consumo infantil.

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Quantas crianças em seu consultório estão acima do peso? Se você for um profissional experiente e que atende há mais de 10 anos, por exemplo, consegue se lembrar se havia mais crianças com sobrepeso antigamente ou nos dias de hoje?

A obesidade infantil é uma preocupação atualíssima de profissionais de saúde em praticamente todo o mundo ocidental, e ganha ares trágicos quando são levados em consideração os efeitos que esse excesso de peso provoca na saúde. Crianças acima do peso têm 89% de chance de se tornarem adultos obesos. Com isso, aumentam-se os riscos de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, além de uma série de outros problemas de saúde difíceis de combater.

O que fazer para eliminar esse problema e ajudar as crianças a se alimentar da maneira correta?

Diversas estratégias têm sido propostas nos últimos anos a fim de combater o sobrepeso infantil, variando de projetos de educação alimentar desde cedo às crianças a leis que taxam o consumo de alimentos ricos em carboidratos e gorduras, como bolachas recheadas e refrigerantes.

Uma estratégia proposta pelos governos dos Estados Unidos e Canadá – e também por diversos guidelines internacionais – é o de evitar oferecer leite integral aos pequenos, trocando-o por leite com teor reduzido de gorduras. E foi justamente este conceito que pesquisadores canadenses decidiram analisar.

POR QUE SUBSTITUIR O LEITE INTEGRAL?

A ideia por trás de tal recomendação é que a maior parte das crianças costuma consumir leite diariamente, sendo este alimento uma das principais fontes de gordura na dieta. Assim, crianças acima de 02 anos deveriam apenas beber leite com teor reduzido de gorduras (de 0.1 a 2%) a fim de manter o peso sob controle.

Um estudo sistemático e meta-analítico realizados por profissionais do St. Michael’s Hospital of Unity Health de Toronto e publicado na última edição do The American Journal of Clinical Nutrition analisou os dados de 5.862 estudos de 07 países, somando um total de quase 21 mil crianças e jovens de 0 a 18 anos, e concluiu que:

  • Crianças que consumiram leite integral tinham chances 40% menores de estarem acima do peso ou de serem obesas;
  • Não há evidências de que consumir leite com teor reduzido de gorduras diminua os riscos do sobrepeso ou da obesidade infantil.

Os dados analisados neste trabalho provêm de estudos observacionais, portanto uma correlação de causa e efeito entre consumo de leite integral e redução nas chances de obesidade e sobrepeso não pode ser determinada.

Todavia, os autores pretendem, agora, realizar ensaios clínicos randomizados a fim de explorar esta hipótese.

“Em nosso estudo, crianças que seguiam as atuais recomendações de ingerir leite com menos gorduras aos 02 anos de idade não eram mais magras do que aquelas que consumiam leite integral”, afirmou o principal autor da pesquisa, dr. Jonathon Maguire, pediatra no hospital St. Michael e pesquisador do MAP Centre for Urban Health Solutions.

 

ENANI PROCURA ENTENDER A NUTRIÇÃO BRASILEIRA

Já que o assunto é nutrição infantil, vale recordar que teremos, em breve, dados inéditos e aprofundados sobre a maneira como as crianças brasileiras estão comendo.

A fim de compreender em detalhes nunca antes vistos a saúde da população jovem brasileira e obter dados para promoção de novas políticas públicas, o Ministério da Saúde começou, em meados de 2019, a bater à porta de 15 mil domicílios brasileiros em 123 municípios que abrigam crianças menores de 5 anos. Esses lares foram selecionados para participar do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI).

Aqui no Brasil, levantamentos do Ministério da Saúde indicam que 12,9% das crianças de 5 a 9 anos são obesas e que 18,9% dos adultos estão acima do peso. Tais números são ainda maiores em países como os Estados Unidos e o Canadá, em que as taxas de obesidade infantil chegam a 18,4% na faixa etária de 6 a 11 anos e de 30% na faixa de 5 a 17 anos, respectivamente.

Crianca comendo ovo frito com a mae

O ENANI, capitaneado pela UFRJ, busca mapear a situação de saúde e nutrição de crianças em todo o país, com informações detalhadas sobre hábitos alimentares, crescimento e desenvolvimento. A meta é visitar residências em todas as regiões do Brasil, incluindo zonas rurais e urbanas. Dentre os dados a serem obtidos, estão:

  • quais são as práticas de aleitamento materno e de alimentação complementar,
  • como é o consumo alimentar,
  • como é o estado nutricional antropométrico infantil e durante a gestação ,
  • e quais são as deficiências dos seguintes micronutrientes:
    • hemoglobina,
    • vitamina A,
    • vitamina D,
    • vitamina E,
    • vitamina B1,
    • vitamina B6,
    • vitamina B12,
    • folato,
    • zinco,
    • selênio e
    • ferritina.

Mais detalhes sobre o ENANI e os progressos dos trabalhos podem ser encontrados no site oficial: https://enani.nutricao.ufrj.br/

 

 

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

 

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