Artigos da SemanaPneumologiaUrgência & Emergência

Infusão Contínua de Sulfato de Magnésio no Pronto-Socorro Funciona?

Compartilhe conhecimento:

Revisão recente aponta benefícios do uso de sulfato de magnésio em infusão contínua para tratamento da asma. Acompanhe análise do PortalPed.

 

O PortalPed comenta este artigo de Revisão, publicado no Jornal de Pediatria no meio deste ano, que coloca novamente em destaque mais uma opção terapêutica no manejo do estado de mal asmático no Pronto Socorro. O artigo indica que pode haver um aliado a mais na prevenção de necessidade de internação e de ventilação mecânica, além de reduzir os riscos de complicações, nesse grupo de pacientes de potencial gravidade.

 

Sabemos que a asma se caracteriza por uma obstrução reversível das vias aéreas inferiores, decorrente de edema, espasmo de musculatura lisa e formação e impactação de muco. Normalmente falamos em asma severa, ou estado de mal asmático, naqueles pacientes que não apresentaram melhora após 2 horas de tratamento convencional no serviço de urgência. Esse estado ameaçador da vida deve ser tratado agressivamente, e novas opções terapêuticas estão constantemente sob foco dos estudos clínicos.

A asma afeta cerca de 19–24% das crianças brasileiras, sendo a principal doença crônica nesta faixa etária. É também a terceira principal causa de internação na população menor de 15 anos de idade.

A asma é uma condição clínica cuja fisiopatogenia envolve uma cascata complexa de resposta inflamatória. A ativação antigênica das células epiteliais do trato respiratório leva a um broncoespasmo, assim como à liberação de mediadores inflamatórios, que por sua vez desencadeiam edema das vias aéreas, lesão celular e descamação, com a formação de muco. Esse processo ocorre de forma heterogênea nas diversas áreas dos pulmões, ocasionando atelectasias em certos pontos e hiperinsuflação por air trapping em outras, o que leva, por sua vez, à alteração de ventilação-perfusão e consequente hipoxemia.

O tratamento inicial preconizado mundialmente envolve oxigênio, hidratação, corticoterapia, drogas beta-adrenérgicas inalatórias (ex: salbutamol) e drogas anticolinérgicas (ex: ipratrópio). Todavia, o sulfato de magnésio endovenoso vem se mostrando, cada vez mais, uma estratégia eficaz no tratamento adjuvante desse grupo de pacientes, especialmente no que diz respeito à redução da necessidade de internação. É sobre ele que apresentamos maiores detalhes a seguir.

infusao continua em pediatria

 

MECANISMO DE AÇÃO

O mecanismo de ação primário do magnésio é a sua propriedade espasmolítica. O magnésio endovenoso em títulos suprafisiológicos acarreta um aumento de íons magnésio que, por sua vez, bloqueiam de forma transitória canais de cálcio da musculatura lisa, provocando seu relaxamento. Além disso, os íons magnésio inibem a liberação de acetilcolina nos terminais nervosos motores, o que inibe, por sua vez, a liberação histamínica nos mastócitos. Assim, diminui-se a produção de muco e o processo inflamatório.

O sulfato de magnésio tem um início de ação muito rápido, assim como seu clearance através do rim. Sendo assim, a correta compreensão de suas propriedades farmacológicas é fundamental para que sua resposta terapêutica seja atingida ao máximo.

Pensando nisso, alguns trabalhos vêm estudando não só a infusão em bolus de diferentes doses, mas também a infusão contínua do magnésio nos pacientes em estado de mal asmático.

 

A REVISÃO

artigo sulfato de magnesio infusao pediatriaNo presente trabalho, os autores revisaram a literatura e encontraram ainda muita heterogeneidade de respostas, mas relacionaram essa heterogeneidade tanto aos diferentes protocolos utilizados pelas equipes de pesquisa, quanto à composição dos grupos estudados. Encontraram, entretanto, diversos dados que mostram o importante papel do sulfato de magnésio na redução da necessidade de internação de pacientes em estado de mal asmático.

Os autores deram especial atenção a uma nova modalidade de administração do magnésio, que chamaram de HDMI (abreviação para High-dose MgSO4 continuous infusion, ou “infusão contínua de alta dose de sulfato de magnésio”).

Os pesquisadores ressaltam a importância de se compreender que a forma ionizada do magnésio é que é responsável diretamente pelo relaxamento da musculatura lisa e que sua concentração plasmática aumenta proporcionalmente conforme infundimos doses altas de sulfato de magnésio endovenoso, de modo a compensar o rápido clearance renal do magnésio. Existem estudos com essa estratégia em outras patologias, tais como hipertensão pulmonar e pré-eclâmpsia, que demonstram efetividade e segurança da infusão contínua da medicação.

Em crianças, foram conduzidos alguns estudos — embora ainda pequenos — objetivando documentar a segurança e eficácia da estratégia. A monitorização clínica, o uso de scores de gravidade da asma, a monitorização rigorosa da pressão arterial, das enzimas cardíacas, do traçado eletrocardiográfico e dos níveis séricos de magnésio total e ionizado têm sido levados em consideração.

Aparentemente, uma estratégia de infusão de dose de 50 a 75 mg/kg de sulfato de magnésio em 30 a 45 minutos, seguido de infusão contínua de 50 mg/kg/hora por 4 horas, tem demonstrado uma boa resposta clínica, sem surgimento de efeitos colaterais significativos, sendo capaz de reduzir ainda mais o número de admissões hospitalares por conta de estado de mal asmático e reduzindo, também, o tempo de permanência do doente na unidade de emergência, se comparado à administração do bôlus isolado de sulfato de magnésio. Além disso, há demonstração da custo-efetividade da estratégia.

 

Alguns efeitos colaterais leves têm sido relatados em cerca de 16% dos pacientes, tais como:

  • queimação em região epigástrica,
  • tontura,
  • dor no local da infusão e
  • hipotensão diastólica

Entretanto, não há relatos de efeitos colaterais graves, como depressão respiratória, hipotensão severa ou fraqueza muscular.

 

 

CONCLUSÃO

Os autores concluem que a estratégia de HDMI pode ser uma boa opção de terapia adjuvante na condução do mal asmático no departamento de urgência e emergência, sendo segura, eficaz, custo-efetiva e reduzindo tempo de permanência hospitalar e número de admissões.

Ressaltamos que isso ainda não é um consenso na literatura e que trabalhos mais robustos são necessários. Porém, a publicação em questão traz à luz mais uma possibilidade de lidarmos com esse problema endêmico em nossa população, tão frequente no nosso dia a dia.

Você já utilizou essa estratégia? O que achou? Teve bons resultados? Comente! Compartilhe Conhecimento!

Acesse o artigo na íntegra
Print Friendly, PDF & Email
Tags
Mostrar mais

Dr. Sidney Volk

Médico pediatra especializado em medicina intensiva pediátrica, com graduação e especialização pela Unicamp. Membro do corpo editorial do PortalPed.

Artigos Relacionados

Um comentário

Deixe uma resposta