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Soluções Adocicadas para Redução de Dor em Procedimentos em Neonatos: uma Metanálise – Pediatrics. 2017 Jan;139(1)

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A utilização de soluções doces no intuito de reduzir a dor aguda nos procedimento em recém-nascidos já foi tema de muitos estudos, sendo que o sabor doce parece induzir um mecanismo analgésico semelhante a um opioide endógeno e, assim, em concentração suficiente, poderia reduzir a dor aguda nos procedimentos.

A maioria dos estudos conclui que as soluções doces (sacarose, glicose ou outras) reduziram as respostas comportamentais e as pontuações em escalas de dor durante os procedimentos dolorosos frequentemente realizados. No entanto, grande parte dos estudos apresentava heterogeneidade: variabilidade nos procedimentos dolorosos realizados; momento em que os resultados foram avaliados; o tipo, volume e concentração de soluções doces; e métricas de notificação utilizadas. Além disso, o número máximo de ensaios incluídos em outras metanálises foi de quatro, limitando assim a força da evidência. 

Os objetivos desta revisão foram: atualizar a visão geral descritiva publicada anteriormente de todas as soluções doces para manejo da dor em procedimentos em recém-nascidos e realizar uma metanálise cumulativa de ensaios clínicos randomizados, avaliando soluções doces (sacarose ou glicose) na redução da dor em procedimento do recém-nascido para estatisticamente concluir se existem evidências da efetividade dessas soluções em um determinado momento.

Só foram incluídos estudos com soluções doces de concentrações ≥24%, em comparação com água ou nenhum tratamento, uma vez que sacarose a 25% foi a solução doce mais utilizada na maioria das pesquisas e a mais recomendada para atendimento clínico na maioria das diretrizes de dor neonatal e infantil.

Dos 168 estudos incluídos nesta revisão, 62 foram elegíveis para inclusão na metanálise cumulativa (MAC). Desses 62,  26 ensaios foram retirados de revisão sistemática anterior por Stevens et al, 18 a partir da revisão sistemática por Bueno et al e 18 estudos adicionais foram identificados através da pesquisa de estudos posteriores a essas revisões.

Para metanálise dos dados de duração do choro, 29 ensaios (totais de 888 e 887 recém-nascidos randomizados para os grupos de tratamento e controle, respectivamente) foram incluídos. Houve uma redução estatisticamente significativa de cerca de 30 segundos no tempo de choro para soluções doces em comparação com o placebo (-27,42 segundos, IC 95%: -51,35 -3,49). A heterogeneidade foi alta (85,4%).

Para a metanálise das pontuações de intensidade da dor, foram incluídos na análise 50 ensaios (1.686 e 1.655 recém-nascidos randomizados para os grupos de intervenção e de controle, respectivamente). Houve uma redução estatisticamente significativa nos escores de dor padronizados e o resultado cumulativo final mostrou uma diferença de média padronizada de -0,90 em favor das soluções doces sobre o controle ou placebo (IC 95%: -1,09 a -0,70). A Heterogeneidade foi alta, em 85,5%.

Discussão

Esta revisão sistemática incluiu 168 estudos, tendo 43 artigos a mais do que as revisões e estudos anteriores sobre a utilização de soluções doces para analgesia em lactentes. A realização desta MAC permitiu o estudo da eficácia e facilitou a determinação do ponto em que a eficácia clínica é estabelecida. A partir disso, podem ser feitas recomendações clínicas para o tratamento e pesquisas futuras.

Efeitos analgésicos das soluções doces para procedimentos dolorosos em recém-nascidos têm sido evidentes por mais de uma década. Apesar disso,  ainda foram objetivo de estudos mesmo após essa constatação, levantando questões: qual é o ponto em que a replicação do estudo é suficiente? Quando não são necessários mais estudos para confirmar os resultados? Assim, em 2010, considerou-se antiética a condução de ensaios clínicos utilizando-se placebo ou nenhum tratamento para alívio da dor em procedimentos em recém-nascidos.

Uma atualização da revisão sistemática da Cochrane por Stevens et al (2016) sobre o uso da sacarose para a dor em procedimento nos recém-nascidos concluiu, similarmente à revisão anterior, que a sacarose reduz a dor ao utilizar lancetas para furar o calcanhar uma vez , mas em menor grau no caso de repetidas vezes, bem como para punção venosa e injeção intramuscular.

Há uma associação entre o número de procedimentos dolorosos e um aumento do risco de comprometimento do desenvolvimento neurológico em prematuros. Assim, devemos utilizar métodos eficazes para minimizar a dor.  

Serão necessários estudos para esclarecimento de dúvidas, como, por exemplo, os mecanismos específicos da analgesia induzida pelo gosto doce, o uso de soluções doces em recém-nascidos de extremo baixo peso, além de qual dose e solução são mais eficazes.

Conclusões

As soluções doces, principalmente sacarose ou glicose, reduzem consistentemente as respostas comportamentais à dor aguda durante procedimento único doloroso, comumente realizados em recém-nascidos. O pensamento dos autores é que seria antiética a condução de qualquer estudo para diminuir a dor em procedimentos nos recém-nascidos utilizando placebo ou nenhum tratamento. Pesquisas futuras precisam se concentrar na tradução do conhecimento sobre o tratamento efetivo da dor nos bebês e no tratamento das falhas de conhecimento restantes.

Comentário do PortalPed

Apesar de uma dose ideal não ter sido determinada, a AAP (American Academy of Pediatrics), em recente revisão, sugere uma dose oral de 0,1 a 1 mL de sacarose a 24% (ou 0,2–0,5 mL/kg) 2 minutos antes de um procedimento doloroso em recém-nascidos [AAP].

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Dr. Breno Nery

Médico pediatra especializado em medicina intensiva pediátrica, com graduação pela Universidade Federal de Pernambuco e especialização pela Unicamp.

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