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Microbiota Intestinal e Obesidade Infantil — Há Influência?

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Como funciona a microbiota intestinal e qual a relação entre esses microrganismos e a manutenção do peso das crianças?

 

O principal motivo para que a obesidade infantil ocorra é um desequilíbrio entre ingestão alimentar e gasto energético, resultando em acúmulo de gordura corporal, o que leva a prejuízos na saúde. Contudo, cada vez mais se tem falado sobre a influência da microbiota intestinal na obesidade. Tratamos, a seguir, dos aspectos dessa influência e do que a Ciência nos informa sobre o assunto.

 

O trato gastrointestinal possui duas grandes funções: absortiva e protetiva. Para tanto, ativa diversos mecanismos endócrinos, parácrinos, neurais e imunes.

Sabe-se que a microbiota intestinal 

  • fornece vitaminas essenciais ao hospedeiro,
  • é importante para o desenvolvimento de um sistema imune efetivo,
  • protege contra patógenos,
  • possui papel fundamental na digestão de macronutrientes.

 

Diversos estudos demonstraram que há uma complexa interligação entre a microbiota, a dieta e o hospedeiro, com evidências sugerindo, inclusive, relações entre microbiota e comportamento, como consumo alimentar e ansiedade. Vamos rever, a seguir, alguns conceitos básicos sobre ela e atualizações sobre sua influência no controle do peso.

 

A MICROBIOTA INTESTINAL E A DIETA

Cada região do trato gastrointestinal contém uma população diferente de micróbios que é influenciada pela dieta.

Normalmente, a diversidade bacteriana aumenta ao longo de todo o trato gastrointestinal. No entanto, indivíduos com dieta rica em gordura apresentam uma diminuição da abundância do gênero bacteriano no intestino delgado, enquanto que no intestino grosso ocorre o inverso.

 

 

BARREIRA INTESTINAL — RELAÇÃO COM A OBESIDADE?

A barreira intestinal é um sistema imunológico e de barreira física altamente regulado e sensível a estímulos internos e externos, como hormônios e nutrientes. A barreira imunológica consiste na liberação de peptídeos antimicrobianos produzidos pelas células de Paneth, células imunes presentes na lâmina própria, placas de Peyer e células dendríticas. A barreira física consiste em células epiteliais conectadas via junções de oclusão (“tight junctions”) e uma camada de muco produzida pelas células caliciformes, que mantém a maioria do conteúdo luminal longe das células epiteliais.

Há evidências de um aumento da permeabilidade intestinal em humanos e roedores obesos.

Com o aumento da gordura luminal por meio da dieta rica em gordura, parece haver uma disbiose que leva ao aumento de bactérias gram-negativas ou a uma função de barreira diminuída, ocasionando aumento do transporte de macromoléculas através da via transcelular.

Moléculas pequenas, menores de 3,6 Å, são capazes de atravessar a barreira intestinal pela via paracelular, através de poros entre as junções de oclusão. No entanto, quando essas junções estão prejudicadas, moléculas maiores que 7,5 Å também podem atravessar via paracelular.

Moléculas grandes atravessam a barreira intestinal via transcelular por endocitose ou através de células imunes e células caliciformes.

Os mecanismos pelos quais componentes bacterianos, lipopolissacárides e peptideoglicanos atravessam o epitélio intestinal na obesidade ainda são desconhecidos.

Estudo realizado por Hamilton et al. (2016) demonstrou que o fluxo paracelular no intestino delgado aumenta após uma semana de uma dieta rica em gordura, porém o fluxo transcelular permanece inalterado. Contudo, a resposta do intestino grosso à mesma dieta rica em gordura foi diferente, não ocorrendo mudanças nos fluxos paracelular e transcelular após 1 semana do início dessa dieta, mas com aumento significativo do fluxo transcelular após 3 e 6 semanas.

A relação de causa e efeito entre a diminuição de função de barreira e a infamação intestinal, porém, ainda é desconhecida.

imagem artigo microbiota obesidade infantil
Figura adaptada de Hamilton MK, Raybould HE. Bugs, guts and brains, and the regulation of food intake and body weight. Int J Obes Suppl. dezembro de 2016;6(Suppl 1):S8–14.

Células enteroendócrinas constituem menos de 1% das células epiteliais na mucosa intestinal. Ainda assim, produzem mais de 30 tipos diferentes de hormônios peptídicos, cruciais para regular a função intestinal. Nutrientes irão ativar as células enteroendócrinas causando a liberação de hormônios peptídicos, que por sua vez atuarão de maneira humoral ou parácrina.

Outro meio de comunicação entre as células enteroendócrinas e a microbiota talvez seja através de receptores de gosto amargo, que são expressos de forma diferente nas células enteroendócrinas após a dieta rica em gordura.

A microbiota e a dieta podem interagir com muitos receptores, incluindo receptores tipo Toll ou pregnano X, podendo ter influência na barreira intestinal.

 

MANIPULANDO A MICROBIOTA

bacterias intestinais pediatria
Bactérias intestinais. Foto: MArtin Oeggerli / National Geographic Society

Prebióticos (fibras que aumentam o crescimento de bactérias benéficas) podem ser uma maneira vantajosa para manipular a microbiota intestinal, eliminando a questão dos probióticos. Em uma metanálise sobre obesidade humana, o aumento da ingestão de fibras na população obesa levou à diminuição da inflamação.

Evidências recentes demostraram que a administração de oligofrutose aumenta o número de células caliciformes e a camada de muco, bem como bactérias associadas ao muco.

Portanto, há evidências de um efeito benéfico de prebióticos e probióticos na mudança da microbiota intestinal, melhorando a função da barreira intestinal e reduzindo o peso corporal. Contudo, estudos em humanos usando inulina e oligofrutose não alcançaram sucesso na perda de peso, ao contrário do que foi visto em modelos de roedores.

 

CONCLUINDO…

O eixo microbiota-intestino-cérebro está idealmente preparado para nos ajudar a compreender as mudanças fisiológicas observadas na obesidade. Muitos questionamentos ainda permanecem sem respostas, como a complexa relação entre microbiota-hospedeiro, a causa da disbiose dessa microbiota, a diminuição da função de barreira intestinal e a inflamação intestinal.

Portanto, a relação entre obesidade, dieta e microbiota em humanos parece existir, de fato. Todavia, a relação de causalidade ainda está sendo estudada. Muitas descobertas ainda estão por vir.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Hamilton MK, Raybould HE. Bugs, guts and brains, and the regulation of food intake and body weight. Int J Obes Suppl. dezembro de 2016;6(Suppl 1):S8–14.
  2. Sanz Y, Moya-Perez A. Microbiota, inflammation and obesity. Adv Exp Med Biol. 2014; 817: 291–317.
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Dra. Mariana Zorron

Endocrinologista Pediátrica. Mestre em Ciências na área de concentração Saúde da Criança e do Adolescente pela UNICAMP. Membro do Departamento Científico e de Endocrinologia da Sociedade de Pediatria do Estado de São Paulo (SPSP). Atua profissionalmente como médica assistente na UNICAMP e em consultório particular. Responsável pelo ambulatório de diabetes relacionado à FC na UNICAMP.

Endereço do consultório: Clínica Affetto Pediatria – R. Bernardo José Sampaio, 339 – Sala 24, Campinas – SP

Fone: (19) 3231-1954

E-mail: [email protected]

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